Jo
1.1-5,14
INTRODUÇÃO
Nesta
lição estudaremos sobre o Filho como o Verbo de Deus. Veremos a conceituação do
termo Verbo e as suas atividades no princípio da criação. Analisaremos a Sua
natureza, atestada na Escritura como compatível com a natureza de Deus Pai,
sendo, porém, Pessoas distintas. Por fim, destacaremos que a unidade na
divindade habilita o Verbo a revelar com fidelidade os atributos e as obras de
Deus.
I. NO PRINCÍPIO ERA O VERBO
De
antemão, observemos de forma breve a nuance existente na tradução do termo
grego “Lógos”. Seu equivalente no português com predominância intercala entre
os termos “Verbo” e “Palavra. Facilmente pode haver algum equívoco ou confusão
no entendimento entre o conceito bíblico/teológico do “Verbo” e o “verbo” como
classe gramatical que expressa ação, estado, fenômeno ou ocorrência.
1.
A tradução da expressão Lógos para o português.
O
termo grego Logos possui vários significados, como “palavra, mensagem,
discurso, razão ou aquilo que comunica e revela”. No Novo Testamento,
especialmente no Evangelho de João, Logos é usado como um título de Jesus,
indicando que Ele é a revelação viva de Deus. Conforme explicam Low e Nida
(2016, p. 358), trata-se do conteúdo da comunicação divina, culminando na
afirmação de que “a Palavra se tornou ser humano” (Jo 1.14).
Quando a Bíblia foi traduzida para o latim, Logos foi vertido por Verbum, termo
que deu origem à palavra Verbo em português. Por causa da forte influência da
tradição latina na história da Igreja, essa tradução foi mantida nas Bíblias em
língua portuguesa. Nesse contexto, Verbo não se refere a uma classe gramatical,
mas à ideia de pensamento reunido e expresso, ou seja, aquilo que procede da
mente e se manifesta por meio da palavra (Vincent, 2013, pp. 20,21). Em versões
mais modernas da Bíblia, como NVI, NVT e NTLH, utiliza-se o termo “Palavra”,
que também expressa corretamente o sentido de Logos. Ambos os termos comunicam
a mesma verdade: Jesus é a expressão perfeita do que Deus pensa, fala e faz.
2.
O Verbo no princípio.
A
declaração de João: “No princípio era o Verbo” é entendida como
“uma evidente alusão à primeira palavra de Gênesis. Mas João eleva a frase de
sua referência a um ponto no tempo, o início da criação, para o tempo da
absoluta preexistência, anterior a qualquer criação, que só é
mencionada no versículo 3. Esse princípio não teve princípio” (Vincent, 2013,
p. 20). Charles Swindoll explica que o verbo grego “eimí”,
traduzido por “era” na sentença inicial de João, está conjugado no passado
imperfeito, podendo ser lido exatamente da seguinte forma: “No princípio
a Palavra [Verbo] estava existindo” (Swindoll, 2017, p.
30). Isto quer dizer que, no Bereshit [Gênesis], o momento da
criação do universo, o Verbo já existia (Gn 1.1; Jo 1.1,3; Cl 1.16).
II. E O VERBO ESTAVA COM DEUS
1.
A Palavra e a mente.
O
apóstolo João prefere chamar o Filho de “Palavra” em vez de apenas “Filho”
porque o termo comunica melhor a ideia de revelação. Enquanto “Filho” aponta
para o relacionamento com o Pai, “Palavra” mostra como Deus se expressa e se dá
a conhecer. A Palavra envolve quem a concebe, quem a pronúncia, aquilo que é
comunicado e o efeito que produz em quem ouve (Marvin R. Vincent, 2013, pp.
26,27). Antes de se tornar homem [encarnação], o Filho estava “no seio
Pai” (Jo 1.18), assim como um pensamento está na mente antes de ser
expresso. O teólogo e escritor C. S. Lewis (2017, pp. 226–227) explica que o
pensamento surge da mente de forma simultânea, não depois dela. Da mesma forma,
o Filho procede eternamente do Pai: nunca houve Pai sem Filho. Portanto, quando
João diz que o Verbo “estava com Deus”, afirma que o Filho sempre
existiu em comunhão com o Pai, desde toda a eternidade (Pv 8.23; Jo 1.1-2;
17.5).
2.
Nuances do termo “Deus” no Novo Testamento.
Em
João 1.1, alguns afirmam que João estaria ensinando a existência de dois
deuses, mas essa interpretação ignora o modo como o termo “Deus” [Théos] é
usado no grego do Novo Testamento. Segundo os escritores Lothar Coenen e Colin
Brown (2000, p. 556), a palavra “Deus” começou como um título de honra,
aplicado àquele que ocupa a posição suprema. Na Bíblia, esse título pode ser
usado de forma funcional ou honorífica, como em casos de líderes humanos ou até
do diabo, chamado “deus deste século” por exercer domínio temporário
(2Co 4.4). Contudo, no Novo Testamento, a expressão “Deus” refere-se
predominantemente ao Pai, a ponto de funcionar como um nome próprio em vários
textos. Quando o título “Deus” é aplicado ao Filho e ao Espírito Santo, ele não
indica apenas função, mas natureza divina plena, compartilhada exclusivamente
pelas três Pessoas da Trindade. Assim, João 1.1 não apresenta dois deuses, mas
duas Pessoas distintas, o Pai e o Filho, que possuem a mesma essência divina
(Jo 10.30; Cl 2.9; Hb 1.3).
3.
O Verbo é criador.
O
Verbo [Jesus] antes de se encarnar não era um ser impessoal. Não era como
quando falamos: mera vocalização de um pensamento somente. Era uma Pessoa. Era
Deus. Devemos entender a sua atuação na criação como na perspectiva do Antigo
Testamento, onde “a ‘Palavra de Deus’ indica Deus em ação. Portanto,
se entendermos logos nesse prólogo como ‘palavra em ação’, começaremos a
fazer-lhe justiça [...] Deus é o criador, e o Verbo é o agente” (Bruce,
2000 apud Lopes 2019, pp. 1628,1630 – grifo nosso). A Escritura revela
peremptoriamente a presença do Verbo como agente da criação, pios ele foi o
agente ativo da criação: os céus foram feitos pela Palavra (Sl
33.6); tudo foi feito por meio dele (Jo 1.3); é criador do
mundo (Jo 1,10); nele tudo foi criado (Cl 1.16); por
meio dele foi feito o universo (Hb 1.2,3); por ele são todas as
coisas (1Co 8.6).
III. E O VERBO ERA DEUS
O
apóstolo João é categórico na revelação da divindade do Verbo (Jo 1.1,3,18).
Encontramos grande diversidade de evidências da divindade do Verbo na
Escritura. A terceira sentença de (Jo 1.1c): “e o Verbo era Deus”, é
a conclusão lógica da afirmação das duas primeiras sentenças.
1.
O Verbo possui os atributos de Deus.
Esta
é uma verdade explícita acerca do Verbo. João destaca alguns atributos de Deus
presentes no Verbo: preexistente (Sl 90.2; Is 43.10; Jo 1.1); possuidor da
mesma essência de Deus (Jo 1.1c; 5.18; 10.30; 14.9-11; Ap 1.8); criador (Jo
1.3; Cl 1.16; Hb 1.2); fonte de vida (Jo 1.4a; 3.36; 5.25; 11.25,26; Cl
1.16,17).
2.
O Deus unigênito.
João
disse: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está junto do
Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18 – NAA). Em outras versões como a ARC,
encontramos “Filho unigênito”. Contudo, “Deus unigênito é a única que se pode
encontrar nos manuscritos anteriores ao século IV d.C., [...] a outra variante
foi ganhando força após esse século, até o ponto de chegar a ser a mais comum
das duas. Assim, a variante “Deus unigênito” é a mais antiga das duas, e,
muito provavelmente, a que expressa o original do evangelho de João” (Champlin,
2014, p. 355). A variação dos termos não compromete a confiabilidade do
Evangelho. Contudo, nos manuscritos originais, João se reportou a Jesus como
“Deus unigênito”. É mais um texto onde o termo “Deus”, explicitamente, é
atribuído ao Filho. Não é de se admirar, visto que esta verdade está exposta em
outras partes do quarto Evangelho (Jo 1.1c; 5.18; 10.33; 20.28).
IV. O VERBO NO EVANGELHO CONFORME
ESCREVEU JOÃO
O
objetivo do Evangelho de João é afirmar quem “O Verbo” realmente é, combatendo
os falsos ensinos do gnosticismo, que negavam a encarnação do Filho de Deus.
Para isso, João destaca verdades fundamentais sobre Cristo.
1.
O Verbo é Deus.
João
declara claramente que Jesus é Deus (Jo 1.1). Ele é chamado Emanuel, “Deus
conosco” (Is 7.14; Mt 1.23), e é reconhecido pelos apóstolos como o “Filho
do Deus vivo” e o “verdadeiro Deus” (Mt 16.16; 1Jo 5.20).
Jesus [o Verbo] possui prerrogativas divinas, como perdoar pecados, receber
adoração e ter vida em si mesmo (Mt 9.2; Jo 5.26). Portanto, Ele não é um ser
criado, mas eternamente Deus.
2.
O Verbo é o Criador.
João
afirma que todas as coisas foram criadas por meio de Jesus (Jo 1.3). Paulo
ensina que Ele é o Criador, Herdeiro e Sustentador de tudo (Cl 1.16-17).
Expressões como “primogênito” e “princípio da criação” não indicam que Cristo
foi criado, mas que Ele é o Senhor e a origem de toda a criação (Hb 1.2-3).
3.
O Verbo é a Luz.
Jesus
veio ao mundo como a Luz que brilha nas trevas (Jo 1.4-5). Seu nascimento
cumpre a profecia de Isaías sobre a grande luz que iluminaria os que estavam em
trevas (Is 9.2; Mt 4.16). Ele mesmo declarou ser a “Luz do mundo”, trazendo
revelação, salvação e direção aos que creem (Jo 8.12; 12.46).
4.
O Verbo é Jesus.
João
apresenta Jesus como o “Verbo eterno”, que sempre existiu com Deus e é Deus (Jo
1.1). Esse Verbo se fez carne, tornando-se plenamente humano sem deixar de ser
divino (Jo 1.14; Fp 2.6-7). Jesus viveu uma vida humana real, experimentando
fome, sede, cansaço, emoções e tentações, mas sem pecado. O Verbo [Jesus] se
fez homem verdadeiro, com corpo, alma e espírito, para revelar Deus e salvar a
humanidade (Jo 1.14; Hb 4.15). Embora Jesus tenha vindo para o seu próprio
povo, muitos não o receberam (Jo 1.11). Contudo, todos os que o recebem pela fé
recebem o direito de se tornarem filhos de Deus (Jo 1.12). A salvação é
oferecida a todos, mas somente os que creem se apropriam dela.
CONCLUSÃO
Jesus
é o Verbo, a Palavra de Deus. Esta verdade é muito bem exposta pelo evangelista
João ao reportar-se a Ele como o “Logos”. Como visto, o conceito do Logos deve
ser preferencialmente concebido a partir da perspectiva do Antigo Testamento,
onde Ele é visto como “a Palavra de Deus em ação” ou a “ação executiva da
Divindade”. Ele estava na criação (Jo 1.1a), na eternidade com Deus (Jo 1.1b) e
era Deus (Jo 1.1c).REFERÊNCIAS
Ø LOW, Johannes; NIDA, Eugene. Léxico
grego-português do Novo Testamento. SBB.
Ø COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário
Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vida Nova.
Ø SWINDOLL, Charles. Comentário
Bíblico Swindoll. Hagnos.
Ø LOPES, Hernandes. Comentário
Expositivo do Novo Testamento. Hagnos.
Ø VINCENT, Marvin. Estudo do
Vocabulário Grego do Novo Testamento.
Ø LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e
Simples. Thomas Nelson.
Ø CHAMPLIN, O Novo Testamento
Interpretado. Hagnos.
Por
Rede Brasil de Comunicação.

Nenhum comentário:
Postar um comentário