Fp
2.5-11; Hb 9.24-28
INTRODUÇÃO
Nesta
lição, estudaremos a obra do Filho em três dimensões inseparáveis: Humilhação,
Redenção e Exaltação. Veremos que na Humilhação, Cristo, sendo Deus,
esvaziou-se voluntariamente, assumiu a forma de Servo e obedeceu até a morte de
cruz (Fp 2.6–8). Pontuaremos que na Redenção, satisfez a justiça divina, expiou
os pecados como Cordeiro perfeito e venceu o pecado e a morte (Is 53; Hb 9.28;
1Co 15.55–57). E por fim, na Exaltação, foi ressuscitado e exaltado pelo Pai,
recebendo o nome acima de todo nome, para que toda a criação o adore (Fp
2.9–11; At 2.33).
I. DEFINIÇÃO DA PALAVRA ENCARNAÇÃO
1.
A etimologia do termo.
A
expressão “encarnação”, ou seja, a humilhação voluntária do
Filho, é utilizada pelos teólogos para indicar que Jesus, o Filho de Deus,
assumiu a forma de carne humana. Encarnar significa: fazer-se carne, fazer-se
homem, tornar-se humano, revestir-se de carne. A encarnação do Verbo consiste
no autoesvaziamento de Cristo, termo traduzido do grego ekenōsen,
que significa: “esvaziar, humilhar-se voluntariamente, neutralizar,
anular-se, despir-se de uma dignidade justa, descendo a uma condição inferior”.
A encarnação afirma, de modo específico, a plena humanidade de Jesus. O termo
encarnação significa literalmente “o ato de ser feito carne” (Jo
1.14). O apóstolo Paulo explica essa verdade de maneira clara e profunda (Fp
2.5-8). Sem a encarnação, Cristo não poderia realmente morrer; e, se Ele não
pudesse morrer, a cruz perderia o seu sentido redentor. Por isso, o escritor
aos Hebreus afirma: “Pelo que, entrando no mundo, diz: Sacrifício e
oferta não quiseste, mas corpo me preparaste” (Hb 10.5).
II. A ENCARNAÇÃO DO VERBO E O
AUTOESVAZIAMENTO
Certa
vez, o evangelista Billy Graham afirmou com propriedade: “O maior
acontecimento da história não foi o homem subir e pisar na lua, mas Deus descer
e pisar na terra”. A encarnação de Jesus [o autoesvaziamento de sua
glória] é maravilhosa em todos os seus aspectos, comprovando que Ele é o
personagem mais importante da história da humanidade. Na encarnação, o Deus
eterno fez-se carne; o Senhor tornou-se súdito; o Divino fez-se humano; o
Imortal fez-se barro; o Rei tornou-se carpinteiro; o Criador fez-se criatura; a
Água teve sede; o Pão sentiu fome; o Forte experimentou cansaço; o Guarda
eterno dormiu; o Consolador chorou; a Alegria sentiu tristeza; a Vida
entregou-se à morte; e o Deus inacessível habitou entre nós (Jo 1.14; Fp
2.5-11).
1.
A encarnação: Deus habitando entre nós.
A
encarnação de Jesus foi o próprio Deus vindo habitar entre os homens (Jo
1.14b). O nome Emanuel, que o próprio evangelista traduz por “Deus
conosco” (Mt 1.23), expressa claramente essa verdade. As Escrituras
confirmam esse mistério: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo
1.14); “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu” (Is
9.6); “Uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e será o seu nome
Emanuel” (Is 7.14); e, “Porque nele habita corporalmente toda a
plenitude da divindade” (Cl 2.9). O verbo “habitar”, em João 1.14,
deriva do grego skenóō, que significa “armar tenda, tabernacular”. Essa
expressão aponta para o caráter da habitação do Verbo em carne. Já em
Colossenses 2.9, Paulo utiliza o verbo katoikéō, que indica uma
habitação permanente, afirmando que toda a plenitude da divindade reside em
Cristo.
2.
A encarnação e a autorrenúncia.
A
doutrina da autorrenúncia ensina que Jesus, ao assumir a natureza humana, não
deixou de ser Deus, pois não se esvaziou de sua divindade (Fp 2.7–8). Como bem
afirmou um teólogo: “Quando Jesus desceu à terra, não deixou de ser Deus;
e quando voltou ao céu, não deixou de ser homem”. A encarnação do Verbo
não é apenas um conceito teológico ligado à união hipostática [a dupla
natureza: divina e humana], mas um dos maiores mistérios das Escrituras
Sagradas, sem o qual a redenção seria impossível. Em sua humanidade, Jesus
participou plenamente de nossas limitações físicas e emocionais: “Manteiga
e mel comerá, até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem” (Is 7.15);
“E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos
homens” (Lc 2.40,52). A Declaração de Fé das Assembleias de Deus afirma
que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, concebido pelo Espírito
Santo no ventre da virgem Maria (Soares [Org.], 2016, p. 59).
3.
A encarnação excede o entendimento humano.
A
encarnação de Jesus é fruto da atuação conjunta da Trindade: do Espírito Santo,
do poder do Pai e da santidade do Filho (Lc 1.35). Trata-se de um mistério que
ultrapassa a razão humana, mas que pode ser plenamente aceito pela fé. Por meio
desse milagre, Cristo veio em semelhança de carne (Rm 8.3), tornou-se
descendência de Abraão (Hb 2.16) e foi feito semelhante aos irmãos em tudo (Hb
2.17).
4.
A encarnação e a mediação.
Ao
participar da carne e do sangue, Jesus tornou-se plenamente apto para ser o
Mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Deus lhe preparou um corpo humano
(Hb 10.5), dotado de carne e ossos (Lc 24.39). A encarnação é também o critério
bíblico para distinguir a verdadeira fé cristã do espírito do anticristo (1Jo
4.2-3).
III. A NATUREZA HUMANA DO VERBO
ENCARNADO
De
forma voluntária, o Senhor Jesus Cristo não utilizou da glória que possuía
junto ao Pai (Jo 17.5), sujeitando-se às limitações humanas, para realizar a
obra da redenção (Fp 2.5-8). Vejamos:
1.
A plena humanidade de Jesus.
O
Novo Testamento afirma que Jesus nasceu de mulher (Gl 4.4), cresceu fisicamente
(Lc 2.52), dormiu, sentiu fome, sede, cansaço, chorou, alegrou-se, foi tentado
e viveu todas as experiências próprias da condição humana, sem pecado.
2.
O Verbo encarnado.
O
Verbo eterno “se fez carne” (Jo 1.14). Esse milagre fundamenta a essência do
Evangelho: Deus introduziu o seu Primogênito no mundo (Hb 1.6), tornando-o
semelhante aos homens, para que fosse o Mediador e o fiel Sumo Sacerdote (Hb
2.17).
3.
Jesus é chamado de homem.
A
Bíblia registra duas genealogias de Jesus e o chama explicitamente de homem (At
2.22; Jo 19.5; 8.40; 1Tm 2.5), ressaltando a realidade de sua encarnação.
4.
O Filho do Homem. A expressão “Filho
do Homem” aparece com frequência nos evangelhos, destacando a humanidade de
Cristo. Ele nasceu, cresceu, trabalhou como carpinteiro, experimentou emoções
humanas, sofreu, foi tentado e morreu como verdadeiro homem.
IV. OS PROPÓSITOS DA ENCARNAÇÃO DO
VERBO
Há
inúmeros propósitos na vinda de Jesus a este mundo: a) prover um
sacrifício efetivo pelo pecado (Hb 10.1-10); b) demonstrar a glória de
Deus (Jo 1.14; Lc 2.14); c) cumprir o decreto de Deus (Gl 4.4); d) ser
o mediador entre Deus e os homens (Hb 12.24; 1Tm 2.5); e, e) trazer paz
aos homens na terra (Lc 2.14b; Ef 2.14-16). Podemos pontuar outros quatro
propósitos da encarnação de Jesus:
- Revelar Deus ao homem (Jo 1.18; 14.7-11). Jesus é a “expressão exata” do ser de Deus (Hb 1.3). A encarnação nos revela Deus pessoalmente, daí Jesus ser chamado “Emanuel”, ou seja, “Deus conosco” (Mt 1.23). O Deus transcendente também é imanente (inerente, inseparável) e acessível. A divindade de Jesus em sua humanidade é a chave para o conhecimento íntimo de Deus. Cristo revelou para nós o Deus invisível (Jo 1.18; 1Tm 1.17; Cl 1.15; 19).
- Destruir as obras do diabo. “Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo” (1Jo 3.8).
- Tornar possível a morte do Redentor. Sem a encarnação, o Verbo não poderia morrer, porque Deus não é passível de morte (Hb 2.9).
- Ser o nosso sumo sacerdote (Hb 4.14-16). Jesus viveu como homem, por isso se compadece e intercede por nós a Deus.
V. CONTRASTE ENTRE O SACERDÓCIO
LEVÍTICO E O DE CRISTO
Hebreus
9.24–28 pode ser dividido em quatro temas principais, nos quais o autor
estabelece um contraste claro entre o sacerdócio levítico e o sacerdócio de
Cristo:
- Superioridade do santuário celestial (v. 24). Cristo não entrou em um santuário terreno, que era apenas cópia e figura do verdadeiro, mas adentrou o próprio céu, a fim de comparecer agora diante de Deus em nosso favor, exercendo perfeita intercessão.
- Unicidade do sacrifício (vv. 25-26). Diferentemente do sumo sacerdote levítico, que oferecia anualmente sangue alheio, Cristo ofereceu a si mesmo uma única vez por todas, no fim dos tempos, para aniquilar o pecado por meio do sacrifício de si mesmo.
- Analogia com a morte humana (v. 27). Assim como aos homens está ordenado morrer uma só vez, vindo depois disso o juízo, também Cristo morreu uma única vez, com o propósito de remover os pecados de muitos.
- Segunda vinda para salvação (v. 28). Cristo aparecerá pela segunda vez, não para tratar do pecado, mas para conceder plena salvação àqueles que o aguardam com fé.
CONCLUSÃO
A tentativa gnóstica/docetista de negar as naturezas
de Cristo continuam a ser defendidas por grupos heterodoxos em nossos dias, e
por isso, precisamos estar preparados para defender com sabedoria a nossa fé.
REFERÊNCIAS
Ø ANDRADE,
Claudionor de. Dicionário Teológico. CPAD.
Ø BAPTISTA,
Douglas. A Santíssima Trindade: o Deus único revelado em três
pessoas eternas. CPAD.
Ø MCGRATH,
Alister E. Teologia sistemática, Histórica e Filosófica. SHEDD.
Ø OLSON,
Roger. História da teologia cristã. VIDA.
Ø SILVA,
Esequias Soares da. Em defesa da fé Cristã. CPAD.
Por
Rede Brasil de Comunicação.



