Gn
18.23-32
INTRODUÇÃO
Nesta
lição estudaremos o juízo sobre os habitantes de Sodoma e Gomorra; pontuaremos
sobre a revelação do juízo divino; veremos sobre a gravidade dos pecados
praticados pelos moradores de Sodoma e Gomorra; apontaremos os elementos da
intercessão de Abraão em prol dos justos de Sodoma e Gomorra; e por fim,
destacaremos lições do juízo divino que servem para a Igreja contemporânea.
I. A REVELAÇÃO DE DEUS A ABRAÃO
1.
Definição de Teofania.
Segundo
o escritor Wycliffe (2007, p. 1909), a expressão “teofania” combina
duas palavras gregas, “theos” (Deus), e “phainein” (mostrar,
manifestar), significando “manifestação de Deus”. Destaca-se que
a manifestação não aparece necessariamente em forma humana (Gn 18.1,2; Gn
32.24-30), mas pode aparecer em uma forma simbólica (Gn 15.17; Êx 13.21,22).
Também pode aparecer em sonhos (Gn 28.10-17) ou visões (Dn 10.5,7; Zc 1.7-17).
2.
A Teofania nos Carvalhais de Manre.
O
capítulo 18 do Gênesis inicia com uma aparição especial do Senhor a Abraão: “Depois,
apareceu-lhe o Senhor nos carvalhais de Manre [...] E levantou os olhos e
olhou, e eis três varões estavam em pé junto a ele” (Gn 18.1,2). Esta
teofania ocorreu no momento mais quente do dia, quando Abraão estava à entrada
da tenda. Abraão, reconhecendo a presença sagrada, prostrou-se e ofereceu
hospitalidade (Gn 18.3-5; Hb 13.2). A atitude de Abraão ao receber os
visitantes é um modelo de reverência e serviço. Ele correu, apressou-se e
ofereceu o melhor de seus recursos. Assim deve ser a atitude de todo aquele que
serve ao Senhor (Rm 12.13; Tt 1.8; Hb 13.2; 1Pe 4.9).
3.
O Senhor confidencia Seus planos a Abraão.
Após
a refeição, o Senhor renova e ratifica a promessa de que Sara iria conceber um
filho: “tornarei a ti por este tempo da vida; e eis que Sara, tua mulher,
terá um filho” (Gn 18.10). Segundo o teólogo Henry (2008, p. 103), “nós
somos lentos de coração para crer, e por isto precisamos da repetição para o
mesmo propósito”. Após a renovação da promessa, o Senhor questiona: “Ocultarei
eu a Abraão o que faço?” (v. 17). Esta pergunta retórica revela o
princípio de que Deus compartilha Seus planos e juízos com aqueles que O temem
(Sl 25.14). A confidência divina é um privilégio da amizade com Deus. Não é por
acaso que Abraão era chamado de “amigo de Deus” (Is 41.8; Tg
2.23). Por isso Deus revela a Abraão os Seus planos (Gn 18.20,21).
4.
O propósito da revelação: a justiça divina.
Deus
revela Seu plano porque Abraão “certamente virá a ser uma grande e
poderosa nação, e nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o
tenho conhecido, que ele há de ordenar a seus filhos e a sua casa depois dele,
para que guardem o caminho do Senhor, para agirem com justiça e juízo” (Gn
18.18.19). A revelação do juízo contra Sodoma e Gomorra tinha um propósito
pedagógico: ensinar a Abraão e sua semente a natureza da justiça divina e a
importância de andar nos caminhos do Senhor. Deus é misericordioso, mas também
é o Deus a quem pertence a justiça (Dt 32.25,26). Deus não age por impulso, mas
de acordo com Sua natureza santa (Lv 19.2; 1Pe 1.15,16) e Seus padrões morais
estabelecidos (Sl 19.7,8; Mq 6.8).
II. A GRAVIDADE DO PECADO DE SODOMA E GOMORRA
1. O clamor que sobe a Deus.
“Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito” (Gn 18.20). A expressão “clamor” indica que a injustiça, a violência e a opressão nas cidades eram tão intensas que chegaram aos céus. “O verbo [hebraico] zāaq é usado com mais frequência para indicar o “clamor” por ajuda em tempos de necessidade urgente, sobretudo o “clamor” por ajuda divina. No entanto, no caso de Sodoma e Gomorra, a expressão clamor conota a culpa ou a condição de pecado” (Vine, 2002, pp.71, 221, grifo nosso). O pecado contra o próximo gera um clamor que Deus ouve (Êx 3.7-9).
2.
O pecado agravado e multiplicado.
O
texto de Gênesis 18.20 enfatiza que o pecado de Sodoma e Gomorra, “se tem
multiplicado” (volume) e “se tem agravado muito” (intensidade).
Não era um pecado isolado, mas uma cultura de depravação enraizada (Gn 19.5-9).
Champlin (2001, p. 135) afirma que “seus habitantes eram culpados dos crimes
mais notórios: eram tendentes a toda espécie de vicio; eram praticantes da
injustiça; e se tinham escravizado a concupiscências desnaturais, que exibiam
publicamente, sem nenhum pejo”. De acordo com Renovato (2026, p. 54), “os
habitantes de Sodoma e Gomorra envolviam-se com todo tipo de pecado. Mas,
dentre eles, se destacava a homossexualidade, pecado gravissimo, considerado “abominacao
ao Senhor”, punido com pena de morte na antiga alianca (Lv
18.22;20.13)”. A multiplicação do pecado indica que a sociedade havia se
corrompido completamente, rejeitando toda norma moral. Esse é o retrato da
sociedade hodierna (2Tm 3.1-5).
3.
A descida para investigar.
“Descerei
agora, e verei se com efeito têm praticado segundo o seu clamor que veio a mim;
e se não, sabê-lo-ei” (Gn 18.21).
Esta linguagem antropomórfica não sugere que Deus desconhecia a situação. O
teólogo Henry (2008, p. 105) esclarece que: “isto não significa que haja alguma
coisa sobre a qual Deus tenha dúvidas, ou esteja às escuras. Mas Ele se compraz
em expressar-se assim, à maneira dos homens: a) Para mostrar a
incontestável justiça e todos os seus procedimentos judiciais. Os homens são
capazes de sugerir que o Seu modo não é justo. Mas saibam que os Seus juízos
são o resultado de um conselho eterno, e nunca são decisões precipitadas ou
impensadas. b) Para dar exemplo aos magistrados, e àqueles que têm
autoridade, para que, com o máximo cuidado e diligência, investiguem os méritos
de uma causa, antes de julgá-la”. Deus é o justo juiz (Sl 7.11).
4.
A paciência divina antes do juízo.
Antes
de executar o juízo, Deus declara a gravidade do pecado de Sodoma e Gomorra,
enfatizando que Sua justiça não age sem pleno conhecimento e evidência. A frase
“descerei e verei” aponta para o ato de observação de Deus. Vemos
esse mesmo princípio na observação da construção da torre de Babel (Gn 11.5-7).
Isto revela um padrão: Deus examina antes de agir. Deus não é apressado
em julgar (Êx 34.6; Sl 103.8; 2Pe 3.9). Ele dá tempo e
oportunidade para o arrependimento (Ez 18.23; 1Tm 2.4) e, antes
da destruição, envia advertências e oportunidade para mudança (Gn 6.3;
2Cr 36.15,16; Jn 3.4-10). A longanimidade divina precede o juízo (Rm 2.4).
III. A INTERCESSÃO DE ABRAÃO PELOS
JUSTOS
1.
A ousadia fundada na justiça divina.
Abraão
pergunta: “Destruirás também o justo com o ímpio? Longe de ti que faças
tal coisa, que mates o justo com o ímpio; que o justo seja como o ímpio, longe
de ti seja. Não faria justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.23,25).
Sua intercessão não questiona o juízo divino, mas apela para o caráter justo de
Deus: 1) Deus é justo e ama a justiça (Sl 11.7; Sl 37.28); 2) Deus
protege e sustenta os justos (Jó 36.7; Sl 34.15; Pv 10.3); e, 3) Deus
faz justiça em favor dos justos (Sl 140.12; Is 54.17; Lc 18.7,8).
2.
A persistência na intercessão.
Abraão
intercede começando com 50 justos, reduzindo a quantidade de justos
gradativamente. A cada redução, Deus responde afirmativamente “pouparei;
não o farei; não a destruirei”. Esta negociação revela a disposição de
Deus de responder à oração intercessória e Sua imensa misericórdia (Sl 100.5;
Lm 3.22,23; Mq 7.18; Lc 1.50; Ef 2.4). A intercessão de Abraão é um modelo de
oração perseverante. Ele não se cansou de apresentar sua petição, e Deus não se
cansou de ouvi-lo. Devemos orar sem cessar (1Ts 5.17).
3.
O limite da intercessão e a realidade do juízo.
A
intercessão cessa em 10 justos. Nem mesmo essa quantidade de justos fora
encontrada em Sodoma e Gomorra (Gn 19.9b). O patriarca Abraão parou em dez, não
porque Deus não o ouviria mais, mas porque o próprio Abraão sabia que não havia
sequer esse número de justos naquelas cidades. A misericórdia tem limites
quando o pecado atinge seu ápice (Gn 15.16; Mt 23.22). Aqui aprendemos que a
intercessão tem limites quando a impenitência humana alcança sua plenitude (Jr
7.16; Jr 11.14). A intercessão não pode suspender eternamente o juízo quando
não há arrependimento (2Cr 36.15,16; Pv 29.1). O juízo divino chegou sobre as
cidades (Gn 19.24,25).
IV. LIÇÕES DO JUÍZO DIVINO PARA A
IGREJA CONTEMPORÂNEA
1.
O perigo da indiferença moral.
A
igreja deve continuar estar alerta contra a normalização do pecado na sociedade
moderna. O juízo sobre Sodoma e Gomorra serve como um exemplo de que Deus não
tolerará a rebeldia contra Suas leis naturais e espirituais, e assim virá o
julgamento divino (Rm 1.27; 1Co 6.9,10; Ef 5.5,6; Hb 13.4; 2Pe 2.6-8).
2.
A iminência do juízo divino.
O
julgamento veio de forma inesperada sobre Sodoma e Gomorra (Gn 19.24,25). A
sociedade de hoje, tal como a de Sodoma e Gomorra, vive distraída e entregue
aos prazeres (Lc 17.28; Fp 3.19; 2Tm 3.1-4), ignorando a iminência do juízo
(1Ts 5.2,3). A iminência nos convoca à vigilância (Mt 24.42; Lc 21.34-3b6),
pois o Juiz de toda a terra voltará para recompensar a cada um segundo as suas
obras (Ap 22.12).
3.
O refúgio na misericórdia divina.
Assim
como os anjos estavam prontos para tirar do meio da destruição aqueles que
temiam a Deus em Sodoma e Gomorra (Gn 19.15,16), Jesus Cristo livrará a Igreja
da ira futura (Rm 5.9; 1Ts 1.10) e do juízo divino (Lc 21.36; Ap 3.10).
4.
A responsabilidade da Igreja como agente de intercessão e testemunho.
Assim
como Abraão se colocou na brecha intercedendo por Sodoma, a Igreja
contemporânea é chamada a exercer seu papel intercessor em favor da sociedade
corrompida (Ez 22.30; 1Tm 2.1,2). Além de denunciar o pecado, a Igreja deve
anunciar a graça salvadora, sendo “sal da terra” e “luz do
mundo” (Mt 5.13,14). Em um contexto de degradação moral, não basta
apenas condenar, mas é necessário proclamar o evangelho que transforma vidas
(Rm 1.16). A omissão diante do pecado coletivo é incompatível com a missão da
Igreja. Portanto, cabe ao povo de Deus viver de forma santa, interceder com
perseverança e testemunhar com fidelidade, apontando para Cristo como o único
meio de escape do juízo vindouro (At 4.12; Cl 4.2-6).
CONCLUSÃO
O juízo contra Sodoma e Gomorra
ensina que Deus é justo e não pune sem causa, mas também é misericordioso e
ouve a intercessão dos justos. A destruição das cidades serve como advertência
contra o pecado, enquanto a preservação de Ló demonstra que Deus livra aqueles
que Lhe pertencem. Que possamos, como Abraão, interceder com ousadia e viver em
justiça diante do Juiz de toda a terra.
REFERÊNCIAS
Ø CHAMPLIN,
Russell Norman. O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo
- Vol. 1. Hagnos.
Ø HENRY,
Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry – Vol. 1. CPAD.
Ø PFEIFFER,
Charles F. et al. Dicionário Bíblico Wyclliffe. CPAD.
Ø RENOVATO,
Elinaldo. Homens dos quais o Mundo não Era Digno. CPAD.
Ø STAMPS,
Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
Ø VINE,
W. E. UNGER et. al. Dicionário Vine. CPAD.
Por
Rede Brasil de Comunicação.



