Dt
1.9-12; 19-21; 26-28; 34-36
INTRODUÇÃO
Nesta lição estudaremos sobre a liderança que serve, compartilha e prepara o povo de Deus; veremos quando a incredulidade interrompe a caminhada do povo do Senhor; pontuaremos sobre a santidade de Deus diante da desobediência de Israel, seu povo; e por fim, destacaremos o deserto como escola para a vida cristã.
I. LIDERANÇA QUE SERVE, COMPARTILHA E
PREPARA
O
crescimento do povo de Israel tornou evidente a necessidade de uma liderança
organizada e compartilhada. Moisés reconheceu suas limitações ao declarar: “Eu
sozinho não poderei levar-vos” (Dt 1.9). Essa mesma realidade já havia
sido percebida por Jetro, que advertira Moisés: “Não é bom o que fazes” (Êx
18.17-18). Reconhecer limitações não significa fraqueza, mas sabedoria. O
ministério envolve responsabilidades e cargas, e por isso necessita de
cooperação (Ec 4.9-10).
1.
Quando o crescimento exige novos cooperadores.
O
próprio Deus havia prometido multiplicar a descendência de Abraão, fazendo-a
numerosa como as estrelas dos céus (Gn 12.2; 15.5). Agora Moisés testemunhava o
cumprimento dessa promessa, pois declarou: “O SENHOR, vosso Deus, já vos
tem multiplicado, e eis que, hoje, sois como as estrelas dos céus em multidão” (Dt
1.10). Entretanto, o crescimento exigia organização. Moisés reconheceu: “Como
suportaria eu sozinho o vosso peso, a vossa carga e a vossa contenda?” (Dt
1.12). A solução foi compartilhar responsabilidades (Dt 1.13-18; Êx 18.21-26).
Esse princípio também aparece no Novo Testamento. Quando a Igreja de Jerusalém
cresceu, surgiu uma necessidade administrativa relacionada às viúvas, e os
apóstolos reconheceram a necessidade de outros homens participarem do serviço
(At 6.1-5; Tt 1.5). A liderança cristã, portanto, não deve centralizar toda a
obra em uma única pessoa, mas preparar outros para servir (2Tm 2.2).
2.
O caráter antes da posição.
Moisés
determinou que fossem escolhidos homens “sábios, inteligentes e
experimentados” (Dt 1.13). Jetro havia apresentado critérios
semelhantes: homens que temessem a Deus, fossem verdadeiros e aborrecessem a
avareza (Êx 18.21). A Escritura demonstra que a liderança espiritual não pode
ser estabelecida simplesmente pela capacidade natural. Quando Samuel procurou o
futuro rei de Israel, Deus lhe ensinou: “o homem vê o que está diante dos
olhos, porém o SENHOR olha para o coração” (1Sm 16.7). Portanto, o
caráter deve preceder a posição. No Novo Testamento, a mesma exigência aparece
na escolha dos sete homens em Jerusalém: deveriam ser “de boa reputação,
cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (At 6.3). Paulo também
estabeleceu qualificações para bispos e diáconos (1Tm 3.1-13; 1Tm 3.6).
3.
Autoridade exercida com justiça e temor.
Moisés
instruiu os líderes: “Não atentareis para pessoa alguma em juízo;
ouvireis assim o pequeno como o grande; não temereis a face de ninguém, porque
o juízo é de Deus” (Dt 1.17). O princípio já estava presente na Lei: “Com
justiça julgarás o teu próximo” (Lv 19.15). A liderança deveria,
portanto, ser exercida sem parcialidade e sem favorecimentos (Dt 16.18-20; 2Cr
19.6-7). Esse princípio permanece válido para a Igreja. Tiago condena a acepção
de pessoas dentro da comunidade cristã (Tg 2.1-9). Jesus apresentou um modelo
diferente daquele encontrado nas estruturas de poder deste mundo: “qualquer
que, entre vós, quiser ser grande será vosso serviçal” (Mt 20.26; cf.
Mc 10.42-45). Pedro também orientou os presbíteros a pastorearem o rebanho “não
por força, mas voluntariamente”, não como dominadores, mas como
exemplos (1Pe 5.2-4). Assim, a autoridade espiritual deve estar acompanhada de
justiça, temor de Deus, humildade e espírito de serviço.
II.
QUANDO A INCREDULIDADE INTERROMPE A CAMINHADA
Depois de tratar da organização da liderança, Moisés
recorda o episódio de Cades-Barneia. Israel estava diante da Terra Prometida,
mas permitiu que os obstáculos fossem maiores do que a confiança na Palavra de
Deus (Dt 1.21).
1. Diante da promessa, a fé precisa
avançar.
Israel havia partido de Horebe em direção à terra que
Deus prometera aos patriarcas (Dt 1.19-21). O Senhor já havia declarado: “Eis
que o SENHOR, teu Deus, te deu esta terra” (Dt 1.21). Por isso, Moisés
acrescentou: “não temas e não te assustes” (Dt 1.21). A promessa não dependia
da força militar de Israel. Deus havia prometido a Abraão, Isaque e Jacó aquela
terra (Gn 12.7; 13.14-17; 15.18-21; 26.3; 28.13-15). Israel deveria confiar no
Deus que havia prometido. A mesma perspectiva aparece posteriormente quando
Josué recebe a missão de conduzir o povo (Js 1.9). O autor aos Hebreus
interpreta esse episódio como uma advertência para que ninguém deixe de
alcançar a promessa (Hb 3.18-19; 4.1-2).
2. A voz da incredulidade pode
contaminar uma comunidade.
O povo pediu que fossem enviados homens para
examinarem a terra (Dt 1.22; Nm 13.1-3). Os espias retornaram reconhecendo que
a terra era boa (Nm 13.27), mas dez deles passaram a enfatizar os obstáculos:
“Não poderemos subir contra aquele povo, porque é mais forte do que nós” (Nm
13.31). Em seguida, afirmaram que haviam visto gigantes e que, diante deles,
pareciam “como gafanhotos” (Nm 13.32-33). A linguagem da incredulidade
contaminou toda a congregação. O povo chorou, murmurou e chegou a desejar
retornar ao Egito (Nm 14.1-4). Josué e Calebe, entretanto, procuraram conduzir
o povo à fé: “Tão somente não sejais rebeldes contra o SENHOR, e não temais o
povo desta terra” (Nm 14.9). A experiência ensina que palavras carregadas de
medo podem influenciar negativamente uma comunidade (Cl 4.6), e Provérbios
lembra que “a morte e a vida estão no poder da língua” (Pv 18.21).
3. Do medo à rebeldia: o caminho do
endurecimento.
O problema de Israel não ficou restrito ao medo. A
incredulidade conduziu à rebeldia. Deuteronômio registra: “Todavia, não
quisestes subir, mas fostes rebeldes ao manda do SENHOR” (Dt 1.26). O povo
chegou ao ponto de murmurar contra Deus, dizendo que o Senhor os havia tirado
do Egito porque os odiava e queria entregá-los aos amorreus para destruí-los
(Dt 1.27). A murmuração aparece repetidamente na história de Israel (Nm 14.27;
Sl 106.24-25), assim como a incredulidade (Sl 78.17-22,32). Paulo utiliza
justamente esses acontecimentos como advertência à Igreja (1Co 10.10,11). O
escritor aos Hebreus apresenta a mesma advertência (Hb 3.12).
III.
A SANTIDADE DE DEUS DIANTE DA DESOBEDIÊNCIA
A recusa de Israel não ficou sem consequências. Moisés
relembra que Deus levou a sério a rebeldia daquela geração. O Senhor é
misericordioso, mas também é santo e justo.
1. A incredulidade diante da
revelação traz consequências.
Depois de ouvir a rebeldia do povo, o Senhor declarou:
“Certamente nenhum dos homens desta maligna geração verá a boa terra que
jurei dar a vossos pais” (Dt 1.35). A exceção foi Calebe: “Calebe,
filho de Jefuné, ele a verá” (Dt 1.36). Josué também receberia a missão
de conduzir a nova geração (Dt 1.38). Números 14 apresenta a mesma sentença: os
que haviam desprezado a Deus e não crido em sua promessa não entrariam na terra
(Nm 14.20-23,29-30). Deus afirma a respeito de Calebe: “Porquanto nele
houve outro espírito, e perseverou em seguir-me” (Nm 14.24). O Salmo 95
retoma esse episódio séculos depois, advertindo: “Não endureçais o vosso
coração” (Sl 95.7-11). Hebreus aplica essa advertência à Igreja e
afirma que aqueles israelitas “não puderam entrar por causa da
incredulidade” (Hb 3.19).
2. Uma geração precisa ensinar a
próxima.
A antiga geração falhou, mas os seus filhos receberiam
a oportunidade de entrar na terra. Deus declarou: “Vossos filhos, de que
dissestes que seriam por presa, eles entrarão nela, e a eles a darei, e eles a
possuirão” (Dt 1.39). Isso mostra que a história deveria ser
transformada em instrumento de ensino. Por essa razão, Moisés ordenaria
posteriormente: “E estas palavras [...] estarão no teu coração; e as
intimarás a teus filhos” (Dt 6.6-7). O Salmo 78 apresenta o mesmo
princípio (Sl 78.6). O objetivo era que a próxima geração “pusesse em
Deus a sua esperança e se não esquecesse das obras de Deus” (Sl 78.7).
Por isso, a formação espiritual dos filhos não pode ser negligenciada (Pv 22.6;
Ef 6.4).
3. Não confundir presunção com fé.
Depois de receberem a sentença, os israelitas tentaram
corrigir o erro pela própria iniciativa. Disseram: “Eis que pecamos
contra o SENHOR; nós subiremos e pelejaremos” (Dt 1.41). Moisés, porém,
respondeu: “Não subais, nem pelejeis, pois o SENHOR não está no meio de
vós” (Dt 1.42). Eles insistiram e subiram presunçosamente à montanha,
mas foram derrotados pelos amorreus (Dt 1.43-44; Nm 14.39-45). O episódio
mostra a diferença entre fé e presunção. Fé é obedecer à Palavra de Deus;
presunção é tentar realizar uma ação sem a autorização de Deus (Pv 14.12).
Jesus também ensinou que não basta falar ou realizar obras religiosas; é
necessário fazer a vontade do Pai (Mt 7.21-23 ver também Tg 1.22).
IV.
O DESERTO COMO ESCOLA PARA A VIDA CRISTÃ
A experiência de Israel não deve ser observada apenas
como um acontecimento distante. Os acontecimentos do Antigo Testamento foram
escritos “para aviso nosso” (1Co 10.11). Por isso, a Igreja
precisa aprender com aquela caminhada.
1. Deus permanece presente durante
a travessia.
Durante todo o percurso, Deus não abandonou Israel.
Ele os guiava por meio da coluna de nuvem de dia e da coluna de fogo de noite
(Êx 13.21-22). Quando o povo estava diante do mar, a presença divina continuou
com ele (Êx 14.19-20). Moisés recordou que Deus havia conduzido Israel durante
todo o deserto: “O SENHOR, teu Deus, te guiou no caminho destes quarenta
anos no deserto” (Dt 8.2). E ainda declarou que Deus os conduziu por
aquele “grande e terrível deserto”, onde havia serpentes,
escorpiões e falta de água, mas o Senhor fez sair água da rocha (Dt 8.15).
Neemias também reconhece essa fidelidade, dizendo que Deus não abandonou o povo
(Ne 9.19). Assim, uma circunstância difícil não significa ausência de Deus. O
Senhor pode estar presente justamente durante o processo que não conseguimos
compreender.
2. As provações podem produzir
maturidade espiritual.
Moisés explicou por que Deus permitiu a caminhada pelo
deserto: “Para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu
coração” (Dt 8.2). Deus também ensinou Israel a depender dele
diariamente. O Senhor permitiu a fome e depois alimentou o povo com o maná (Dt
8.3). A experiência das provas possui também um princípio neotestamentário: “A
prova da vossa fé produz a paciência” (Tg 1.3). Por isso, as provações
podem produzir perseverança e maturidade (Tg 1.2-4; Rm 5.3-5). Pedro ensina que
a fé provada é mais preciosa do que o ouro (1Pe 1.6-7).
3. A Igreja deve aprender com os
erros de Israel.
Paulo apresenta uma das aplicações mais importantes
dessa narrativa: “Ora, estas coisas foram-nos feitas em figura, para que
não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram” (1Co 10.6). Ele
prossegue mencionando idolatria (1Co 10.7), imoralidade (1Co 10.8), tentação ao
Senhor (1Co 10.9) e murmuração (1Co 10.10). E conclui: “Aquele, pois, que
cuida estar em pé, olhe que não caia” (1Co 10.12 ver também Hb 3.7-19).
Portanto, a Igreja não deve apenas conhecer a história de Israel; deve aprender
com ela.
4. O alvo da caminhada continua
sendo a promessa.
A geração que saiu do Egito não deveria permanecer
eternamente no deserto. Deus havia prometido uma terra e ordenado: “Eis
que o SENHOR, teu Deus, te deu esta terra; sobe, possui-a” (Dt 1.21). A
promessa continuava de pé, embora aquela geração tivesse perdido a oportunidade
de desfrutá-la. Josué posteriormente recebeu a ordem: “Levanta-te, pois,
agora, passa este Jordão” (Js 1.2). A caminhada exigiria coragem,
obediência e perseverança (Js 1.6-9). A Bíblia conclama a não abandonar a
confiança (Hb 10.35), a perseverarem até o fim (Hb 10.36) e a não retrocederem
(Hb 10.38-39).
CONCLUSÃO
A recapitulação da jornada no
deserto tinha uma finalidade pedagógica: ensinar a nova geração a não repetir
os erros da antiga. Israel experimentou a direção, a provisão e o cuidado de
Deus, mas também sofreu as consequências da incredulidade e da desobediência. A
grande lição de Deuteronômio 1 é que o deserto pode ser uma escola de Deus,
onde aprendemos dependência, fé, obediência e maturidade.
REFERÊNCIAS
Ø STAMPS, Donald. Bíblia de
Estudo Pentecostal. CPAD.
Ø PFEIFFER, Charles F.; HARRISON,
Everett F. Gênesis a Deuteronômio. v. 1. Moody Press.
Ø THOMPSON, J. A. Deuteronômio: introdução
e comentário. Vida Nova.
Ø WRIGHT, Christopher J. H. Deuteronômio.
Edizioni GBU.
Por
Rede Brasil de Comunicação.




