Dt
6.1-9
INTRODUÇÃO
O capítulo 6 de Deuteronômio
apresenta o chamado de Israel para amar o Senhor de maneira exclusiva e
integral. Nesta lição, estudaremos a obediência e o temor de Deus; pontuaremos
a existência de um único Deus e a exclusividade da adoração; veremos a natureza
do amor ao Senhor; e por fim, destacaremos sua relação com a vida cristã.
I.
O CHAMADO À OBEDIÊNCIA E O TEMOR A DEUS
1. Os mandamentos,
estatutos e juízos a serem seguidos na terra prometida.
O texto de Deuteronômio 6.1 inicia
com uma orientação: “Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os
juízos que o SENHOR, vosso Deus, ordenou que se vos ensinassem, para que os
fizésseis na terra a que passais a possuir”. Aqui temos a tríplice
designação da legislação mosaica e segundo Champlin (2001, p. 781), “alguns
estudiosos têm sugerido que os ‘mandamentos’ são os dez mandamentos, e os
outros dois vocábulos apontam para desenvolvimentos e ampliações posteriores do
núcleo original da lei”. Toda essa legislação precisava ser ensinada, conhecida
e observada, para que então houvesse vida (Dt 4.1; Dt 5.33). Tal legislação
deveria ser cumprida na “terra a que passais a possuir”, ou seja,
na Terra Prometida, dada a Israel por meio do Pacto Abraâmico (Gn 15.18).
2. O temor ao
Senhor como princípio de sabedoria e garantia de longevidade.
A finalidade primordial da entrega
da Lei fora estabelecida em Deuteronômio 6.2, que exorta: “para que temas
ao Senhor, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos, que eu te
ordeno, ...; e que teus dias sejam prolongados”. O temor é o princípio
da sabedoria (Pv 1.7). Temer a Deus não significa um pavor paralisante (Êx
20.20; 2Tm 1.7), mas um respeito reverente que reconhece a santidade (Pv 9.10;
Hb 12.28,29; Ap 15.4), a justiça (Dt 32.4; Sl 9.7,8; Sl 19.9;) e o poder
soberano do Altíssimo (Sl 111.10; Jr 10.6,7). A longevidade prometida na terra
era o reflexo de uma vida alinhada com os princípios morais e espirituais que o
povo deveria seguir.
3. O temor ao
Senhor deveria ser transmitido as próximas gerações.
Os filhos de Israel precisavam
instruir à geração mais jovem quanto aos seus deveres na Terra Prometida: “para
que temas ao Senhor, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos,
que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua
vida; ...” (Dt 6.2). Por motivo de desobediência, a geração anterior
havia perecido no deserto, com as exceções únicas de Calebe e Josué (Dt 1.34).
Essa atitude moldaria o comportamento das próximas gerações, impedindo-os de
caminhar pelos caminhos tortuosos do pecado e da rebeldia. Sobre os pais
repousa a responsabilidade de guiar, de instruir os filhos nos caminhos do
Senhor (Pv 22.6), criando-os na doutrina do Senhor (Ef 6.4), a exemplo de como
foi feito com o jovem Timóteo (2Tm 3.14,15).
4 A observância
diligente garante o cuidado de Deus.
Moisés traz uma palavra de
exortação para o povo no sentido de orientá-los a serem diligentes na
observância aos preceitos repassados, de forma que pudessem viver bem e serem
prósperos: “Ouve, pois, ó Israel, e atenta que os guardes, para que bem
te suceda, e muito te multipliques, como te disse o Senhor, Deus de teus pais,
na terra que mana leite e mel” (Dt 6.3). A prosperidade autêntica sob o
pacto teocrático dependia estritamente da manutenção de uma aliança de
fidelidade inegociável com Deus (Dt 4.40). A multiplicação e o bem-estar
nacional não eram frutos do acaso ou da habilidade militar, mas o desdobramento
natural da bênção divina (Dt 28.2-9). A desobediência, por sua vez, romperia
essa comunhão pactual e atrairia a ruína sobre as estruturas sociais e
econômicas da nação israelita (Dt 28.15-48).
II.
O ÚNICO DEUS E A EXCLUSIVIDADE DA ADORAÇÃO
1. O Shemá.
A expressão hebraica Shemá é
a transliteração de uma palavra hebraica que significa “ouvir”, sendo a
primeira palavra de Deuteronômio 6.4: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso
Deus, é o único SENHOR” (Baker, 2023, p. 683). De acordo com Gomes
(2026, p. 66), “o versículo conhecido como Shemá é o credo
fundamental da fé israelita [...], trata-se do credo monoteísta judaico [...].
Os judeus diariamente o citam, tanto de manhã quanto de noite. O texto completo
do Shemá tradicionalmente envolve três trechos da Torá:
amar a Deus de todo o coração (Dt 6.4-9), a recompensa da obediência (Dt
11.13-31) e lembrar-se dos mandamentos (Nm 15.37-41) [...]. Jesus Cristo faz
questão de confirmar o Shemá como o maior dos os mandamentos (Mc
12.29)”.
2. “Ouve, Israel”:
a importância de escutar Deus.
A primeira palavra de Deuteronômio
6.4 é “Ouve”, mostrando que a importância do ser humano dar ouvidos as
orientações de Deus. Moisés não apresenta uma sugestão, mas uma convocação da
comunidade da aliança para escutar e obedecer ao Senhor. A fé bíblica nasce da
revelação divina, pois “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”
(Rm 10.17). Deus exige que Seu povo não apenas conheça Seus mandamentos,
mas os receba com atenção e disposição para obedecer. Moisés fala a uma
comunidade que deveria organizar toda a existência ao redor da vontade divina.
Ouvir, na perspectiva bíblica, envolve receber, guardar e praticar aquilo que
Deus ordena (Tg 1.22). Jesus também declarou: “Bem-aventurados os que
ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11.28).
3. A rejeição da
idolatria.
Deuteronômio 6.4 estabelece a
exclusividade de Deus como divindade. Israel vivia cercado por povos que
adoravam diversas divindades (Dt 6.14,15; Dt 12.29-31; Jz 2.11-13), mas sua
identidade deveria estar fundamentada no Deus único. O teólogo Gomes (2026, p.
66) destaca que no texto de Deuteronômio 6.4 encontra-se o nome pessoal de Deus
YHWH [Yahweh], repetido por duas vezes, salientando a sua
exclusividade, soberania e comunhão com Israel. Esse princípio da devoção
exclusiva ao Senhor [monoteísmo – que também é apresentado no Novo Testamento:
“Todavia, para nós há um só Deus, o Pai” (1Co 8.6)] é apresentado
também em Deuteronômio 4.35 e 32.39 e o primeiro mandamento já estabelecia
isso: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). O povo
não poderia dividir sua lealdade espiritual entre Yahweh e os
deuses das outras nações. De igual forma, a Igreja também é chamada a rejeitar
qualquer espécie de idolatria (1Jo 5.21). A idolatria moderna pode assumir formas
diferentes, incluindo dinheiro, poder, prazer, status e até mesmo o próprio
ego.
4. Deus deve
ocupar o centro da adoração.
Existe uma constante oposição entre
a adoração ao Deus vivo e a confiança em imagens e divindades fabricadas pelo
homem (Is 44.9-20). A idolatria envolve abandonar a adoração verdadeira e
exclusiva e transferir para criaturas aquilo que pertence exclusivamente ao
Criador (Sl 115.1-8). O Shemá chama o crente a colocar Deus acima
de tudo aquilo que disputa o trono do coração e, ao mesmo tempo, relembra-o que
somente Ele (exclusividade) merece a nossa adoração. Paulo relmebrou isso aos
irmãos que estavam em Roma (Rm 11.36).
III.
A NATUREZA DO AMOR EXIGIDO
1. Amar com todo o
coração.
O mandamento do amor é a resposta
adequada à revelação de Deus. Ele não é um sentimento vago, mas uma entrega
total e integral de todo o ser: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de
todo o teu coração [...]” (Dt 6.5). “O termo coração (hebraico: lev
e grego: kardia) apresenta um significado mais amplo do
que o entendimento comum, as vezes incluindo a mente. Provérbios, por exemplo,
fala de uma pessoa que “imagina em sua alma” (ARC), literalmente,
“pensa em seu coração” (Pv 23.7). Essencialmente, coração se
refere a totalidade do ser interior; e dele que brota a fé verdadeira, pois,
para ser salvo precisamos “crer no nosso coração” (Rm 10.9)”
(Geisler, 2010, p. 38). Segundo o teólogo Champlin (2001, p. 784), o amor a
Deus envolve santo temor e reverência, e exprime-se por meio daquela lealdade
devotada e singela de todo o coração (1Jo 4.7-21).
2. Amar com toda a
alma.
“Amarás, pois, o Senhor, teu
Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma [...]” (Dt 6.5). De
acordo com o teólogo Wycliffe, (2007, p. 79), no Antigo Testamento, a palavra “alma”
quase sempre é a tradução da expressão hebraica nephesh,
que é também muitas vezes traduzida como “vida”, assim como
várias outras palavras, tais como: “pessoa”, “si mesmo”, “criatura”,
sendo usada 756 vezes nos originais. A alma aqui se refere a totalidade do
homem, o homem completo. Logo, amar com toda a alma é colocar a própria
existência a serviço de Deus.
3. Amar com todo o
poder.
A expressão de Deutorômio 6.5 é não
trata apenas do amor a Deus no tocante ao coração e a alma, mas tembém com todo
o nosso poder: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração,
e de toda a tua alma, e de todo o teu poder” (ARC). A expressão “poder”
na Bíblia versão Almeida Revista e Atualizada é traduzida para “força”,
que remete a ideia de todas as potencialidades do homem. Analisando o versículo
na sua totalidade, podemos perceber que “estes três termos envolvem o homem
inteiro, sua vida interior e exterior, sua mente, vontade, desejo, emoções
psíquicas, energia mental e física, e até suas posses” (Beacon, 2005, p. 434).
IV.
O GRANDE MANDAMENTO E A VIDA CRISTÃ
1. Jesus confirmou
o Grande Mandamento.
É importante destacar que o Senhor
Jesus fez menção da passagem de Deuteronômio 6.5 quando indagado por um fariseu
sobre qual seria o grande mandamento da lei, Jesus disse-lhe: “Amarás o
Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu
pensamento” (Mt 22.37). O escritor Beacon (2005, p. 484), ao comentar
essa passagem diz que “Jesus citou o Shemá, acrescentando
“entendimento” (Mc 12.30; Lc. 10.27). Fez isso provavelmente para pôr em relevo
o vocábulo grego dianoia, que significa “entendimento”,
usado pela Septuaginta [tradução do AT hebraico para o grego]”. Aqueles
que têm o Antigo Testamento em baixa estima, deveriam lembrar que, de suas
páginas, o Filho de Deus definiu a religião vital em termos de amor. Cristo,
portanto, não anulou o mandamento de Deuteronômio; revelou sua profundidade e
centralidade.
2. O amor a Deus
conduz ao amor ao próximo.
Após a menção do qual seria o
grande mandamento, Jesus complementa dizendo que esse era: “o primeiro e
grande mandamento” (Mt 22.38). No entanto, Jesus complementa a sua
fala, dizendo: “E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo
como a ti mesmo” (Mt 22.39). O amor vertical a Deus precisa produzir
consequências horizontais nos relacionamentos humanos. Não é possível afirmar
que amamos a Deus enquanto cultivamos ódio e desprezo pelo irmão (1Jo 4.20).
Paulo afirma que “o amor não faz mal ao próximo” (Rm 13.10). Tiago chama o amor
ao próximo de “lei real” (Tg 2.8). Amar a Deus é também aprender a tratar o
próximo segundo os valores do Reino.
3. O amor
verdadeiro produz obediência.
O texto do capítulo 6 do livro de
Deuteronômio une amor e obediência (Dt 6.17). Aquele que ama a Deus procura
guardar Sua Palavra (Jo 14.15; Jo 14.23; 1Jo 5.3) e andar em Seus caminhos (Dt
10.12,13; Js 22.5). Jesus afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e
os guarda, este é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu
o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). O amor cristão não é mera
emoção religiosa ou entusiasmo momentâneo. Ele manifesta-se em escolhas
concretas (1Jo 2.3-6), santidade (1Pe 1.15,16) e fidelidade (1Co 13.4,7; Ap
2.2-4). Portanto, amar a Deus significa desejar agradá-lo em todas as áreas da
vida (1Co 10.31; Cl 1.10; 1Ts 4.1).
CONCLUSÃO
Deuteronômio 6 ensina que amar a
Deus acima de todas as coisas é o centro da vida com Ele e o fundamento da
obediência. Jesus confirmou esse princípio como o “primeiro e grande
mandamento” (Mt 22.38), inseparável do amor ao próximo (Mt 22.39).
Portanto, o verdadeiro amor a Deus manifesta-se em obediência, adoração,
santidade e serviço. Que o Shemá permaneça vivo em nossos corações, levando-nos
a amar, servir e glorificar o único e verdadeiro Deus.
REFERÊNCIAS
Ø CHAMPLIN, Russell N. O Antigo
Testamento Interpretado Versículo por Versículo - Vol 1. Hagnos.
Ø EARLE, Ralph et. al. Comentário
Bíblico Beacon – Vol. 1, CPAD.
Ø GEISLER, Norman. Teologia
Sistemática – Vol. 3. CPAD.
Ø GOMES, Osiel. O Deus da Aliança
- Advertências, Promessas e Bênçãos no Livro de Deuteronômio. CPAD.
Ø LOGMAN, Tremper. Dicionário
Bíblico Baker. CPAD.
Ø PFEIFFER, Charles F. et al. Dicionário
Bíblico Wyclliffe. CPAD.
Ø STAMPS, Donald. Bíblia de
Estudo Pentecostal. CPAD.
Por
Rede Brasil de Comunicação.



