At 15.1-5,28,29,36-39
INTRODUÇÃO
O capítulo 15 de Atos dos Apóstolos registra um dos episódios centrais da história da Igreja Primitiva: o Concílio de Jerusalém. A questão central em debate era se os gentios convertidos ao Evangelho precisavam obedecer à Lei de Moisés, especialmente à circuncisão, para serem salvos. Veremos que a decisão tomada pelos apóstolos e presbíteros reafirmou uma verdade fundamental bíblica: a salvação é pela graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, e não pelas obras da Lei. É uma graça que alcança todas as nações!
I. A GRAÇA SUSTENTA A UNIDADE DA IGREJA
A unidade da Igreja não é produzida por tradições, culturas ou preferências humanas, mas pela graça de Deus revelada em Cristo Jesus. Em Atos 15, vemos que essa graça preservou a comunhão entre judeus e gentios, pois a salvação abrange todos os povos. Assim, a graça não apenas salva, mas também une o povo de Deus em um só corpo.
1. O contexto.
“Se vos não circuncidardes conforme
o uso de Moisés, não podeis salvar-vos” (At 15.1). Alguns cristãos oriundos do
judaísmo acreditavam que os gentios precisavam se tornar judeus antes de se
tornarem cristãos, e, com isso, estavam acrescentando exigências humanas ao
evangelho. Essa exigência ameaçava dividir a Igreja entre judeus e gentios
(Barclay, 2008; Pfeiffer; Harrison, 2001). Porém, a Bíblia ensina: “Porque
pela graça sois salvos, por meio da fé...” (Ef 2.8,9). Fica nítido,
biblicamente, que a graça elimina qualquer mérito humano: “Mas cremos que
seremos salvos pela graça do Senhor Jesus Cristo, como eles também” (At
15.11).
2. Deus sempre
planejou alcançar todas as nações.
Desde Abraão, Deus prometeu:
“Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). O plano de
Deus nunca foi apenas para Israel. Israel foi escolhida para ser instrumento da
revelação divina às demais nações. Deus não faz acepção de pessoas (At
10.34,35; Rm 2.11). Quando a graça é substituída pelo legalismo, surgem
divisões. Mas, quando a graça é compreendida corretamente, a Igreja permanece
unida (1Co 1.10; Tt 2.11).
3. O Evangelho
derruba muros.
O próprio apóstolo Pedro, no
Concílio de Jerusalém, relembra que Deus havia derramado o Espírito Santo sobre
os gentios sem exigir circuncisão (At 15.8,9). Cristo removeu as barreiras
entre judeus e gentios (Ef 2.14-16). Na cruz de Cristo caiu o muro da separação,
o preconceito religioso e a distinção quanto ao acesso à salvação (Cl 3.11; Gl
3.28). Todos são convidados a vir a Cristo (Mt 11.28-30; Jo 6.37; Lc
14.16,17,23).
II. A SALVAÇÃO
PELA GRAÇA É UMA OFERTA UNIVERSAL EM CRISTO
O Concílio de Jerusalém confirmou
algo já anunciado pelos profetas: o plano de Deus sempre foi alcançar todas as
nações. Por isso que em At 15.14 está escrito: “Deus visitou os gentios, para
tomar deles um povo para o seu nome”.
1. A promessa
desde o AT.
A universalidade da graça não
começou em Atos, mas em Gênesis 12.3. E o profeta Isaías profetizou, dizendo: “Também
te dei para luz dos gentios” (Is 49.6). E há inúmeras outras passagens
bíblicas que atestam que a promessa de Deus para a salvação da humanidade
encontra-se registrada, também, no AT (Is 45.22; Jn 4.2).
2. Cristo veio
para todos.
Jesus declarou: “Porque Deus
amou o mundo de tal maneira...” (Jo 3.16). O termo “mundo”, aqui,
demonstra o alcance universal do amor divino. E, após a Sua ressurreição, Jesus
ordenou aos seus discípulos (e a nós, pela Bíblia): “Ide, portanto, fazei
discípulos de todas as nações...” (Mt 28.19). A missão da igreja é
global, porque a graça de Deus é universal em sua oferta.
3. Aspectos bíblicos e teológicos importantes.
O Apóstolo João, em Apocalipse 5.9,
numa visão, contempla no céu: “... gente de toda tribo, língua, povo e
nação”. A aplicação que tiramos é que a Igreja não pode restringir o
Evangelho. Devemos anunciar Cristo aos vizinhos, às cidades, aos povos
indígenas, aos grupos não alcançados, às nações da Janela 10/40, enfim, ao
mundo inteiro. A razão é porque a graça que nos alcançou deve alcançar a
outros. Notemos que, à luz das Sagradas Escrituras, a graça de Deus é:
universal em sua oferta (1Tm 2.3-6); suficiente para todos (Hb 10.12-14); e,
eficaz para os que creem (Ef 2.8,9).
III. A IMPORTÂNCIA
DE CRESCERMOS NA GRAÇA DE CRISTO JESUS
Receber a graça é o começo da
caminhada cristão, não o fim. De forma que o mesmo Deus que salva pela graça
também deseja que Seus filhos amadureçam nela. Vejamos: “Antes, crescei
na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe
3.18).
1. O que significa
crescer na graça?
É amadurecer no relacionamento com
Jesus Cristo, tornando-se dia após dia mais próximo a Ele em caráter e
obediência. Crescer na graça abrange: Conhecer mais a Cristo (Jo 17.33);
tornar-se mais parecido com Cristo (Rm 8.29); viver em santidade, aborrecendo
uma vida de pecado (Tt 2.11,12); manifestar mudanças visíveis em nossa vida (Gl
5.22,23); e reconhecer ser dependente de Deus (2Co 12.9).
2. Como crescer na
graça?
A Bíblia mostra alguns meios pelos
quais Deus promove esse crescimento: Pela Palavra de Deus (Sl 119.105; 1Pe
2.2); pela oração (Jr 33.3; Ef 6.18); pela comunhão da Igreja (Hb 10.24-25);
pela ação do Espírito Santo (Gl 5.16); e pelas provações, que fortalecem a fé
(Tg 1.2-4).
3. A graça gera
transformação.
O apóstolo Paulo certa vez
declarou: “Pela graça de Deus sou o que sou” (1Co 15.10). A graça de Deus não é
apenas favor imerecido; é também poder transformador sobre nossa vida. A graça
corrige, educa, disciplina e molda o nosso caráter (Tt 2.11,12). Diante disso,
entendemos que a maturidade espiritual é evidência de uma vida alcançada e
transformada pela graça de Deus.
IV. SOMENTE PELA
GRAÇA O SER HUMANO PODE SER SALVO
No NT a palavra graça no grego é “charis”,
que indica “graciosidade, favor”. Abaixo destacaremos algumas
verdades sobre este maravilhoso favor segundo a teologia paulina:
1. A graça é um
ato soberano (Rm
1.7; 5.15; Tt 2.11).
Nos referidos textos, Paulo nos diz
que a graça procede soberanamente de Deus. Isto porque o favor lhe pertence e
vem dEle, como sua fonte originária (1Co 15.10; 1Pe 5.10). Segundo a Bíblia
Deus manifestou a sua graça em toda a sua plenitude na Pessoa de Seu Filho,
Jesus Cristo (2Co 8.9; 13.13; Gl 1.6; 6.18; Ef 2.7; Fp 4.23; Ap 22.21).
2. A graça é
imerecida (Rm
3.24; 11.6; Ef 2.5.7-8).
A palavra traduzida como graça
significa “favor imerecido” (Rm 4.4,5). Nestes versículos, o apóstolo
deixa claro que a salvação é concedida ao homem sem ele merecer. Não há nada
que o homem faça para o tornar digno de ser salvo, pois a graça aniquila
qualquer obra que visa receber a salvação por mérito “Não vem das obras, para
que ninguém se glorie” (Ef 2.9). Segundo Soares (2008, p. 76) “A graça é o
favor imerecido de Deus para com o pecador; é a bondade para quem apenas merece
o castigo”. ~
3. A graça é
suficiente (Rm
3.24; Ef 2.8).
Paulo nos mostra que a Lei não é
suficiente para salvar o homem. Até porque seu propósito é revelar o pecado e
não o extirpar (Rm 7.7). Todavia, a graça de Cristo faz por nós aquilo que a
Lei nunca poderia. Um dos pontos da Reforma Protestante é o “sola gratia” que
diz que embora a fé seja o caminho dado por Deus para a salvação, não é ela
quem nos salva, mas a graça “Porque pela graça sois salvos” (Ef
2.8-a). Lutero refutou o ensino da salvação pelas obras, alegando com base no
que diz a Bíblia, que é pela graça, o favor imerecido de Deus, que ele nos
concede a bênção da salvação (At 15.11; Rm 11.6).
4. A graça não faz
acepção (Rm
1.16; 3.29; 9.24).
Desde o início, a proposta divina
sempre foi estender a bênção da salvação a todos os homens indiscriminadamente
(Gn 12.3; Gl 3.8). É errôneo pensar embora “todos pecaram” (Rm
3.23), somente os eleitos serão salvos. Em Tito 2.11 Paulo diz “[...] a graça
de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens”. A vinda do
Messias mostra claramente que, Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34; Rm
2.11; Ef 6.9; 1Pe 1.17). Portanto, a graça de Deus que nos é oferecida mediante
o evangelho, é derramada sobre todos em pé de igualdade, ou seja, ela alcança
tanto judeus como gentios (Gl 3.14; Ef 3.6).
5. A graça pode
ser resistida (At
18.5,6).
A Bíblia nos mostra que o homem
pode pôr seu livre arbítrio aceitar ou rejeitar o plano divino para a sua
salvação (At 4.4; 9.42; 17.4; Hb 3.15; 4.7). O povo de Israel é a maior prova
de que a graça não é irresistível, pois o apóstolo João diz: “Veio para o
que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11). Jesus quando estava
em frente ao Monte das Oliveiras declarou: “Jerusalém, Jerusalém, [...]
quantas vezes QUIS EU ajuntar os teus filhos, [...] e TU NÃO QUISESTE!” (Mt
23.37). Confira ainda: (At 7.51; 18.6).
CONCLUSÃO
Como observamos, esse episódio
bíblico demonstra que o plano redentor de Deus não estava restrito a Israel,
mas se estende a todos os povos da Terra, cumprindo as promessas feitas desde o
Antigo Testamento. A resolução trazida pelo Concílio de Jerusalém preservou a
unidade da Igreja e confirmou que o Evangelho se destina a todos os povos, sem
distinção, porque a graça de Deus alcança todas as nações. Portanto, a graça
divina não apenas salva, mas também une, transforma e capacita os crentes
salvos a crescerem em Cristo Jesus, em unidade.
REFERÊNCIAS
Ø BARCLAY, William. Comentário Bíblico: Atos dos
Apóstolos. São. Paulo: Hagnos, 2008.
Ø GABY, Wagner. A igreja dos gentios: da chamada
missionária à consolidação do Evangelho entre os povos. 1. ed. Rio de Janeiro:
CPAD, 2026.
Ø PFEIFFER, Charles F.; HARRISON, Everett F. Comentário
Bíblico Moody: Os Evangelhos e Atos. 6. imp. Moody Press, 2001. 4v.
Ø STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio
de Janeiro: CPAD, 2011.
Por
Rede Brasil de Comunicação.



