sexta-feira, 30 de outubro de 2026

LIÇÃO 5 – O GRANDE MANDAMENTO






Dt 6.1-9 



INTRODUÇÃO
O capítulo 6 de Deuteronômio apresenta o chamado de Israel para amar o Senhor de maneira exclusiva e integral. Nesta lição, estudaremos a obediência e o temor de Deus; pontuaremos a existência de um único Deus e a exclusividade da adoração; veremos a natureza do amor ao Senhor; e por fim, destacaremos sua relação com a vida cristã.


I. O CHAMADO À OBEDIÊNCIA E O TEMOR A DEUS
1. Os mandamentos, estatutos e juízos a serem seguidos na terra prometida.
O texto de Deuteronômio 6.1 inicia com uma orientação: “Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que o SENHOR, vosso Deus, ordenou que se vos ensinassem, para que os fizésseis na terra a que passais a possuir”. Aqui temos a tríplice designação da legislação mosaica e segundo Champlin (2001, p. 781), “alguns estudiosos têm sugerido que os ‘mandamentos’ são os dez mandamentos, e os outros dois vocábulos apontam para desenvolvimentos e ampliações posteriores do núcleo original da lei”. Toda essa legislação precisava ser ensinada, conhecida e observada, para que então houvesse vida (Dt 4.1; Dt 5.33). Tal legislação deveria ser cumprida na “terra a que passais a possuir”, ou seja, na Terra Prometida, dada a Israel por meio do Pacto Abraâmico (Gn 15.18).
 
2. O temor ao Senhor como princípio de sabedoria e garantia de longevidade.
A finalidade primordial da entrega da Lei fora estabelecida em Deuteronômio 6.2, que exorta: “para que temas ao Senhor, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos, que eu te ordeno, ...; e que teus dias sejam prolongados”. O temor é o princípio da sabedoria (Pv 1.7). Temer a Deus não significa um pavor paralisante (Êx 20.20; 2Tm 1.7), mas um respeito reverente que reconhece a santidade (Pv 9.10; Hb 12.28,29; Ap 15.4), a justiça (Dt 32.4; Sl 9.7,8; Sl 19.9;) e o poder soberano do Altíssimo (Sl 111.10; Jr 10.6,7). A longevidade prometida na terra era o reflexo de uma vida alinhada com os princípios morais e espirituais que o povo deveria seguir.
 
3. O temor ao Senhor deveria ser transmitido as próximas gerações.
Os filhos de Israel precisavam instruir à geração mais jovem quanto aos seus deveres na Terra Prometida: “para que temas ao Senhor, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos, que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; ...” (Dt 6.2). Por motivo de desobediência, a geração anterior havia perecido no deserto, com as exceções únicas de Calebe e Josué (Dt 1.34). Essa atitude moldaria o comportamento das próximas gerações, impedindo-os de caminhar pelos caminhos tortuosos do pecado e da rebeldia. Sobre os pais repousa a responsabilidade de guiar, de instruir os filhos nos caminhos do Senhor (Pv 22.6), criando-os na doutrina do Senhor (Ef 6.4), a exemplo de como foi feito com o jovem Timóteo (2Tm 3.14,15).
 
4 A observância diligente garante o cuidado de Deus.
Moisés traz uma palavra de exortação para o povo no sentido de orientá-los a serem diligentes na observância aos preceitos repassados, de forma que pudessem viver bem e serem prósperos: “Ouve, pois, ó Israel, e atenta que os guardes, para que bem te suceda, e muito te multipliques, como te disse o Senhor, Deus de teus pais, na terra que mana leite e mel” (Dt 6.3). A prosperidade autêntica sob o pacto teocrático dependia estritamente da manutenção de uma aliança de fidelidade inegociável com Deus (Dt 4.40). A multiplicação e o bem-estar nacional não eram frutos do acaso ou da habilidade militar, mas o desdobramento natural da bênção divina (Dt 28.2-9). A desobediência, por sua vez, romperia essa comunhão pactual e atrairia a ruína sobre as estruturas sociais e econômicas da nação israelita (Dt 28.15-48).


II. O ÚNICO DEUS E A EXCLUSIVIDADE DA ADORAÇÃO
1. O Shemá.
A expressão hebraica Shemá é a transliteração de uma palavra hebraica que significa “ouvir”, sendo a primeira palavra de Deuteronômio 6.4: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Baker, 2023, p. 683). De acordo com Gomes (2026, p. 66), “o versículo conhecido como Shemá é o credo fundamental da fé israelita [...], trata-se do credo monoteísta judaico [...]. Os judeus diariamente o citam, tanto de manhã quanto de noite. O texto completo do Shemá tradicionalmente envolve três trechos da Torá: amar a Deus de todo o coração (Dt 6.4-9), a recompensa da obediência (Dt 11.13-31) e lembrar-se dos mandamentos (Nm 15.37-41) [...]. Jesus Cristo faz questão de confirmar o Shemá como o maior dos os mandamentos (Mc 12.29)”.
 
2. “Ouve, Israel”: a importância de escutar Deus.
A primeira palavra de Deuteronômio 6.4 é “Ouve”, mostrando que a importância do ser humano dar ouvidos as orientações de Deus. Moisés não apresenta uma sugestão, mas uma convocação da comunidade da aliança para escutar e obedecer ao Senhor. A fé bíblica nasce da revelação divina, pois “a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus” (Rm 10.17). Deus exige que Seu povo não apenas conheça Seus mandamentos, mas os receba com atenção e disposição para obedecer. Moisés fala a uma comunidade que deveria organizar toda a existência ao redor da vontade divina. Ouvir, na perspectiva bíblica, envolve receber, guardar e praticar aquilo que Deus ordena (Tg 1.22). Jesus também declarou: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam” (Lc 11.28).
 
3. A rejeição da idolatria.
Deuteronômio 6.4 estabelece a exclusividade de Deus como divindade. Israel vivia cercado por povos que adoravam diversas divindades (Dt 6.14,15; Dt 12.29-31; Jz 2.11-13), mas sua identidade deveria estar fundamentada no Deus único. O teólogo Gomes (2026, p. 66) destaca que no texto de Deuteronômio 6.4 encontra-se o nome pessoal de Deus YHWH [Yahweh], repetido por duas vezes, salientando a sua exclusividade, soberania e comunhão com Israel. Esse princípio da devoção exclusiva ao Senhor [monoteísmo – que também é apresentado no Novo Testamento: “Todavia, para nós há um só Deus, o Pai” (1Co 8.6)] é apresentado também em Deuteronômio 4.35 e 32.39 e o primeiro mandamento já estabelecia isso: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3). O povo não poderia dividir sua lealdade espiritual entre Yahweh e os deuses das outras nações. De igual forma, a Igreja também é chamada a rejeitar qualquer espécie de idolatria (1Jo 5.21). A idolatria moderna pode assumir formas diferentes, incluindo dinheiro, poder, prazer, status e até mesmo o próprio ego.
 
4. Deus deve ocupar o centro da adoração.
Existe uma constante oposição entre a adoração ao Deus vivo e a confiança em imagens e divindades fabricadas pelo homem (Is 44.9-20). A idolatria envolve abandonar a adoração verdadeira e exclusiva e transferir para criaturas aquilo que pertence exclusivamente ao Criador (Sl 115.1-8). O Shemá chama o crente a colocar Deus acima de tudo aquilo que disputa o trono do coração e, ao mesmo tempo, relembra-o que somente Ele (exclusividade) merece a nossa adoração. Paulo relmebrou isso aos irmãos que estavam em Roma (Rm 11.36).


III. A NATUREZA DO AMOR EXIGIDO
1. Amar com todo o coração.
O mandamento do amor é a resposta adequada à revelação de Deus. Ele não é um sentimento vago, mas uma entrega total e integral de todo o ser: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração [...]” (Dt 6.5). “O termo coração (hebraico: lev e grego: kardia) apresenta um significado mais amplo do que o entendimento comum, as vezes incluindo a mente. Provérbios, por exemplo, fala de uma pessoa que “imagina em sua alma” (ARC), literalmente, “pensa em seu coração” (Pv 23.7). Essencialmente, coração se refere a totalidade do ser interior; e dele que brota a fé verdadeira, pois, para ser salvo precisamos “crer no nosso coração” (Rm 10.9)” (Geisler, 2010, p. 38). Segundo o teólogo Champlin (2001, p. 784), o amor a Deus envolve santo temor e reverência, e exprime-se por meio daquela lealdade devotada e singela de todo o coração (1Jo 4.7-21).
 
2. Amar com toda a alma.
“Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma [...]” (Dt 6.5). De acordo com o teólogo Wycliffe, (2007, p. 79), no Antigo Testamento, a palavra “alma” quase sempre é a tradução da expressão hebraica nephesh, que é também muitas vezes traduzida como “vida”, assim como várias outras palavras, tais como: “pessoa”, “si mesmo”, “criatura”, sendo usada 756 vezes nos originais. A alma aqui se refere a totalidade do homem, o homem completo. Logo, amar com toda a alma é colocar a própria existência a serviço de Deus.
 
3. Amar com todo o poder.
A expressão de Deutorômio 6.5 é não trata apenas do amor a Deus no tocante ao coração e a alma, mas tembém com todo o nosso poder: “Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu poder” (ARC). A expressão “poder” na Bíblia versão Almeida Revista e Atualizada é traduzida para “força”, que remete a ideia de todas as potencialidades do homem. Analisando o versículo na sua totalidade, podemos perceber que “estes três termos envolvem o homem inteiro, sua vida interior e exterior, sua mente, vontade, desejo, emoções psíquicas, energia mental e física, e até suas posses” (Beacon, 2005, p. 434).


IV. O GRANDE MANDAMENTO E A VIDA CRISTÃ
1. Jesus confirmou o Grande Mandamento.
É importante destacar que o Senhor Jesus fez menção da passagem de Deuteronômio 6.5 quando indagado por um fariseu sobre qual seria o grande mandamento da lei, Jesus disse-lhe: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt 22.37). O escritor Beacon (2005, p. 484), ao comentar essa passagem diz que “Jesus citou o Shemá, acrescentando “entendimento” (Mc 12.30; Lc. 10.27). Fez isso provavelmente para pôr em relevo o vocábulo grego dianoia, que significa “entendimento”, usado pela Septuaginta [tradução do AT hebraico para o grego]”. Aqueles que têm o Antigo Testamento em baixa estima, deveriam lembrar que, de suas páginas, o Filho de Deus definiu a religião vital em termos de amor. Cristo, portanto, não anulou o mandamento de Deuteronômio; revelou sua profundidade e centralidade.
 
2. O amor a Deus conduz ao amor ao próximo.
Após a menção do qual seria o grande mandamento, Jesus complementa dizendo que esse era: “o primeiro e grande mandamento” (Mt 22.38). No entanto, Jesus complementa a sua fala, dizendo: “E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39). O amor vertical a Deus precisa produzir consequências horizontais nos relacionamentos humanos. Não é possível afirmar que amamos a Deus enquanto cultivamos ódio e desprezo pelo irmão (1Jo 4.20). Paulo afirma que “o amor não faz mal ao próximo” (Rm 13.10). Tiago chama o amor ao próximo de “lei real” (Tg 2.8). Amar a Deus é também aprender a tratar o próximo segundo os valores do Reino.
 
3. O amor verdadeiro produz obediência.
O texto do capítulo 6 do livro de Deuteronômio une amor e obediência (Dt 6.17). Aquele que ama a Deus procura guardar Sua Palavra (Jo 14.15; Jo 14.23; 1Jo 5.3) e andar em Seus caminhos (Dt 10.12,13; Js 22.5). Jesus afirmou: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). O amor cristão não é mera emoção religiosa ou entusiasmo momentâneo. Ele manifesta-se em escolhas concretas (1Jo 2.3-6), santidade (1Pe 1.15,16) e fidelidade (1Co 13.4,7; Ap 2.2-4). Portanto, amar a Deus significa desejar agradá-lo em todas as áreas da vida (1Co 10.31; Cl 1.10; 1Ts 4.1).


CONCLUSÃO
Deuteronômio 6 ensina que amar a Deus acima de todas as coisas é o centro da vida com Ele e o fundamento da obediência. Jesus confirmou esse princípio como o “primeiro e grande mandamento” (Mt 22.38), inseparável do amor ao próximo (Mt 22.39). Portanto, o verdadeiro amor a Deus manifesta-se em obediência, adoração, santidade e serviço. Que o Shemá permaneça vivo em nossos corações, levando-nos a amar, servir e glorificar o único e verdadeiro Deus.
 
 
 
 
REFERÊNCIAS
Ø CHAMPLIN, Russell N. O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo - Vol 1. Hagnos.
Ø  EARLE, Ralph et. al. Comentário Bíblico Beacon – Vol. 1, CPAD.
Ø  GEISLER, Norman. Teologia Sistemática – Vol. 3. CPAD.
Ø GOMES, Osiel. O Deus da Aliança - Advertências, Promessas e Bênçãos no Livro de Deuteronômio. CPAD.
Ø  LOGMAN, Tremper. Dicionário Bíblico Baker. CPAD.
Ø  PFEIFFER, Charles F. et al. Dicionário Bíblico Wyclliffe. CPAD.
Ø  STAMPS, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
 
 
 
Por Rede Brasil de Comunicação.





LIÇÃO 5 - EXEMPLO DE SERVOS FIÉIS: TIMÓTEO E EPAFRODITO

 
Vídeo Aula - Pastor Reynaldo





LIÇÃO 5 - O GRANDE MANDAMENTO (V.2)


Vídeo Aula - Pastor Osiel
 




LIÇÃO 5 - O GRANDE MANDAMENTO (V.1)


Vídeo Aula - Pastor Ciro




 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

QUESTIONÁRIOS DO 4° TRIMESTRE DE 2026






REGOZIJAI-VOS NO SENHOR
Vivendo com Propósito à
Luz da Carta aos Filipenses.









Lição 4
Hora da Revisão

A respeito de “Brilhe a Luz de Cristo em Meio à Geração Corrompida”, responda:
 
 
1. De acordo com a lição, como a vida cristã deve ser vivida?
Com reverência e seriedade diante de Deus.
 
2. Qual a origem das situações nas quais existem inveja e contenda, conforme a Epístola de Tiago?
Essas coisas têm origem "terrena, animal e diabólica".
 
3. Por que a lição afirma que o desafio de ser fiel a Deus em nossos dias é tão difícil ou maior do que nos tempos apostólicos?
Posto que o amor de muitos já esfriou e o pecado se multiplicou (Mt 24.12).
 
4. O que significa ser "luzeiro" neste mundo?
Viver de forma que a presença de Cristo seja percebida por intermédio das nossas atitudes, palavras e escolhas.
 
5. Por que Paulo estava exortando os filipenses a se regozijarem com os sofrimentos que ele passava?
Conquistar a coroa do martírio era o grande objetivo da vida de Paulo e, por tal razão, caso isso acontecesse, todos deveriam se regozijar.



 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

QUESTIONÁRIOS DO 4° TRIMESTRE DE 2026






O DEUS DA ALIANÇA -
Advertências, Promessas, e Bênçãos
no Livro de Deuteronômio.









Lição 4
Revisando o Conteúdo

A respeito de “O Chamado à Obediência” responda:          
 
 
1. Como Moisés inicia o capítulo 5?
Moisés inicia o capítulo convocando o povo a ouvir, aprender e cumprir a Lei: "Ouve, ó Israel [...]" (Dt 5.1).
 
2. De acordo com a lição, para que aponta a exortação de Moisés?
A exortação de Moisés aponta para a responsabilidade de cada israelita em aprender e cumprir os mandamentos, renovando a aliança com a nova geração.
 
3. Do que tratam os quatro primeiros mandamentos?
Em Deuteronômio 5.6-11, Moisés reafirma os quatro primeiros mandamentos e enfatiza a relação exclusiva do povo com Deus, isto é, do amor a Deus.
 
4. Do que tratam os seis últimos mandamentos?
Nos versículos 16-21, encontramos a segunda parte da Lei, voltada para o relacionamento com o próximo, isto é, a ética relacional, do amor ao próximo.
 
5. Como Moisés encerra o seu discurso no capítulo 5?
Moisés encerra o discurso reforçando a necessidade de perseverar na obediência: "Andareis em todo o caminho [...]" (Dt 5.33).



 

sábado, 24 de outubro de 2026

LIÇÃO 4 – O CHAMADO À OBEDIÊNCIA






Dt 5.1-10, 16-21,29




INTRODUÇÃO
Nesta lição, estudaremos a íntima relação entre o Antigo e o Novo Concerto, compreendendo como os princípios estabelecidos na Lei encontram seu cumprimento e expressão plena no Novo Testamento. Veremos que a verdadeira Êx pressão de amor a Deus se manifesta na obediência à Sua Palavra. Analisaremos como os quatro primeiros mandamentos, em seus desdobramentos, conduzem o homem a um relacionamento de amor, reverência e fidelidade para com Deus. Por fim, destacaremos que os seis últimos mandamentos, em seus desdobramentos, orientam o relacionamento do homem com o próximo, demonstrando que o amor ao próximo também constitui parte essencial da vontade de Deus.


I. O CONCERTO REITERADO EM HOREBE
A aliança Mosaica originalmente concedida no Sinai, em Horebe, foi reiterada por Moisés antes do povo possuir a terra prometida. Observemos:
 
1. O concerto em Horebe ultrapassa as gerações.  
O Decálogo (dez mandamentos) descrito em (Dt 5.1-21) não é um novo concerto, mas uma recapitulação da lei que já havia sido dada no Sinai (Êx 20.1-17). Moisés disse à geração que entraria na terra prometida que Deus não esqueceu do “concerto que jurou a teus pais” (Dt 4.31). Em seguida, afirma: “O SENHOR, nosso Deus, fez conosco concerto em Horebe. Não foi com nossos pais que fez o SENHOR este concerto, senão convosco, todos os que hoje aqui estamos vivos” (Dt 5.2,3). Afinal, com quem Deus fez o concerto? Com os pais, que pereceram no deserto, ou com os filhos prestes a possuir a terra? Deus fez uma aliança com aquela primeira geração, os pais (Êx 20.1-17) e não estava fazendo uma nova aliança com a geração seguinte, os filhos (Dt 5.1-21). A palavra “concerto” nunca aparece no plural no AT. Não existem “concertos”. O que Moisés pede é que seus contemporâneos se apropriem integralmente do primeiro concerto. Aquela geração deveria se apropriar da palavra de Deus que fora dada à primeira geração. Moisés sequer insinua que Deus precisasse fazer algo além ou que sua obra estivesse incompleta. Deus já tinha realizado todo o necessário para que a obediência fosse possível a todas as gerações (Hamilton, 2007, p. 452).
 
2. O concerto em Horebe e o novo concerto.
O concerto feito por Deus em Horebe tem sinais muito semelhantes aos do dia de Pentecostes. No Sinai houve “sonido mui forte” (Êx 19.16) e “Deus descera [...] em fogo” (Êx 19.18), características notáveis na descida do Espírito Santo (At 2.1-3). O teólogo McMurtry diz: “1.500 anos depois dos eventos no Monte Sinai, Deus marcou outro encontro com o Seu povo. Tudo aquilo que os judeus provaram no Monte Sinai: o fogo, o vento e as línguas, também seriam experimentados pelos judeus cristãos em Jerusalém, evento esse que aconteceu exatamente no mesmo dia no calendário” (2023, p. 93). Conforme (Êx 20.18): “todo o povo viu [...] sonido”, isto é, foram “vistas” vozes, “línguas”, no Monte Sinai. Experiência muito marcante no Pentecoste (At 2.3). Parte da tradição judaica sustenta que, no Sinai, Deus falou em 70 idiomas diferentes, conforme McMurtry, semelhante ao ocorrido em (At 2.1-13), promovido pelo Espírito.
 
3. A vigência da lei moral.
Na tradição cristã os dez mandamentos são classificados como “lei moral”. Além dos sinais em Horebe que são vistos em Pentecoste, o conteúdo da lei moral se perpetuou na Nova Aliança em Cristo. Jesus indica que os dez mandamentos são fundamentais para a vida quando falou com o jovem rico (Mt 19.17-19); quando radicalizou as exigências morais dos dez mandamentos (Mt 5-7); quando afirmou explicitamente que não veio revogar a Lei (Mt 5.17-19); quando ratificou categoricamente que tudo na Lei se cumpriria rigorosamente (Mt 5.18) e quando comissionou os discípulos a guardar tudo o que tinha ensinado (Mt 28.20). O apóstolo Paulo afirmou que a lei é santa e boa (Rm 7.12). Portanto, os dez mandamentos são válidos para todos os cristãos de todas as épocas (Reifler, 2016, p. 41).


II. OS QUATRO PRIMEIROS MANDAMENTOS: AMOR A DEUS
O grande mandamento, conforme Jesus, é “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt 22.36-38). A maior expressão de amor a Deus não se manifesta no conhecimento, execução de dons extraordinários, numa generosidade estonteante, nem no altruísmo, porque tudo isso pode ser feito sem amor (1Co 13.1-3). A maior expressão de amor a Deus é a obediência (Dt 10.12,13; 30.20; 1Sm 15.22,23; Jo 14.15,21,23; 15.10; 1Jo 2.3,4; 5.3). A observância de pelo menos quatro mandamentos redigidos no Sinai revela se amamos ao SENHOR:

1. Não terás outros deuses.
O primeiro mandamento no Sinai e reiterado em (Dt 5.7) trata da seguinte questão: a quem se deve adorar? A expressão “diante de mim” pode significar “ante minha face” ou “acima de mim” (Reifler, 2016, p. 59) ou ainda “além de mim” (Hamilton, 2007, p. 219). “A tentação de Israel (nossa?) não é tanto deixar Deus de lado para servir a outros deuses, mas adorar a outros deuses além de Deus [...] O povo de Deus não pode permitir que nada nem ninguém tenha maior prioridade em suas vidas” (Hamilton, 2007, p. 219). Este mandamento confronta diretamente a idolatria e é amplamente reiterado no NT: (Mt 4.10; At 14.15; Gl 4.8,9; 1Ts 1.9; 1Co 8.4-6; 10.14,20,21; 1Jo 5.21; Ap 22.8,9).
 
2. Não farás imagens de Deus.
Este mandamento regula nossa perspectiva de Deus. É viável fazer projeções dEle? Na Bíblia, “imagem” é uma representação de alguma coisa real ou irreal, física ou metafísica, por desenho, pintura, escultura ou projeção humana (Reifler, 2016, p. 73). Mas, se Deus nunca foi visto (Êx 33.20; Jo 1.18; 1Tm 6.16), como pode ser projetado com fidelidade numa imagem? A falta de fidelidade da imagem de Deus numa escultura levaria a veneração e/ou adoração de uma imagem divina não fiel. Deus não compactua com nenhum tipo de infidelidade, por menor que seja ou por mais bem intencionada que seja (Dt 4.15,16; At 17.29; 19.26,27; Rm 1.22,23). Ante Cristo, contudo, pode-se curvar, pois Ele revela com fidelidade a “imagem do Deus invisível” (Cl 1.15; Jo 14.8,9; Hb 1.3).
 
3. Não tomarás o nome de Deus.
A palavra hebraica para “vão” (Dt 5.11) vem a significar “estar vazio”, no sentido de “não ter substância, não ter valor”. Qualquer invocação ou menção do nome de Deus, que seja simplesmente “por fazer”, equivale a tomar o nome de Deus em vão. Em outras palavras, tomar o nome de Deus em vão é usar seu divino nome em relação a coisas sem importância, fúteis e insignificantes (Cf. Lv 19.12; Dt 23.21; Ez 22.28; Rm 2.24) (Hamilton, 2007, p. 221).
 
4. Lembra-te do dia de sábado.
Este é o único mandamento do decálogo que não encontra sua confirmação literal no NT. Jesus dá o devido valor ao sábado ensinando que é um dia para promover o bem (Mt 12.9-12; Lc 13.10-17; Jo 5.1-18; 9.1-16), preservar a vida (Mt 12.1-8; Lc 14.1-6) e possibilitar um descanso merecido (Êx 20.20; Dt 5.14; Mc 2.27). 


III. OS SEIS ULTIMOS MANDAMENTOS: AMOR AO PRÓXIMO
O mandamento “amarás o teu próximo como a ti mesmo” é vívido e marcante nas páginas do NT, porém, ele é um mandamento citado por Jesus do AT (Lv 19.18). “Amar ao próximo” é tido como o segundo grande mandamento no novo concerto (Mc 12.31). Ele é cumprido quando observamos às seguintes ordenanças:
 
1. Honra teus pais.
Mais do que “obedeça a teu pai e a tua mãe”. Obedecer é mais fácil que honrar. É possível odiar e obedecer, mas é impossível odiar e honrar. A gravidade da ordem é reforçada pela escolha do verbo “honrar”. Jesus citou e corroborou o quinto mandamento (Mt 15.4; Mc 7.10), também o apóstolo Paulo o fez em (Ef 6.2) (Hamilton, 2007, p. 222).
 
2. Não matarás.
A palavra hebraica rasah, “não assassinarás”, tem sido aceita como tradução viável, pois tem-se em vista o assassinato violento de um inimigo pessoal (Nm 35.27,30; 2Rs 6.32). Esse verbo nunca é usado para o assassinato em legítima defesa (Êx 22.2), morte acidental (Dt 19.5) e execução de assassinos (Gn 9.6). É usado para o suicídio, mas não para o homicídio não premeditado (Êx 22.12-14) ou acidental (Nm 35.23) (Reifler, 2016, p.112). Veja também: (Mt 5.21,22; 19.18; Mc 10.19; Lc 18.20; Rm 13.9; Tg 2.11; 4.2; 1Jo 3.15).
 
3. Não adulterarás.
“Era considerado adultério a relação sexual entre um homem casado ou solteiro com a mulher de outro homem. O crime era, principalmente, contra o marido traído, o próximo. A questão era considerada tão grave que a pena para este pecado era a morte (Dt 22.22-28). Jesus ainda ampliou este mandamento afirmando que não apenas a prática sexual em si, mas a cobiça desta prática já é considerada adultério. Veja o que ele diz em Mateus 5.27-28” (Gusso, 2020, p. 60). Observe ainda: (Mt 19.18; Mc 10.19; 1Co 5.11; 6.9,10; 10.8; 1Ts 4.3-5; Hb 13.4).
 
4. Não furtarás.
“Parece estar claro neste mandamento que a propriedade do próximo deve ser respeitada, ninguém deve lançar mão daquilo que não é seu. Talvez, ainda, o sentido original deste mandamento diga respeito a mais do que aquilo que é conhecido como furto na atualidade, ele pode estar apontando para o rapto de uma pessoa com a intenção de vendê-la como escravo, assim como foi feito com José (Gn 37)” (Gusso, 2020, p. 60). No NT, encontramos: (1Co 5.10,11Rm 13.9; Ef 4.28).
 
5. Não dirás falso testemunho.
É bem possível que a aplicação original dessa lei se referia a testemunhos falsos em juízo ou em transações oficiais e negócios em geral. A partir da história de Acabe, Jezabel e a vinha de Nabote, fica evidente que falsas acusações e testemunhos fraudulentos podem ser utilizados para tomar do próximo aquilo que lhe pertence por direito (Hamilton, 2007, p. 224). Veja ainda: (Mt 12.36,37; 15.18,19; Jo 8.44; At 5.1-10; 1Tm 1.9,10; Ap 21.8).
 
6. Não cobiçarás.
Em (Dt 5.21), o termo hebraico “awâ”, sugere: não desejarás, não almejarás. Todos os nove mandamentos anteriores são objetivos; este é subjetivo, pois traz proibições ao homem ainda em âmbito interior. Talvez o motivo para esse mandamento estar no final seja o fato de que ele está por trás de tantas mortes, adultérios, roubos e mentiras. É a raiz de muitos problemas (Hamilton, 2007, p. 226). Ver ainda: (Mt 7.21-23; Lc 16.14,15; 1Tm 6.6-10; Tg 1.14,15).


CONCLUSÃO
O chamado à obediência ultrapassa as gerações. Deus revelou a Sua vontade aos homens por meio de mandamentos que, na verdade, são princípios eternos que se desdobram ao longo da evolução da humanidade.




REFERÊNCIAS
Ø  GUSSO, Antônio Renato. O Pentateuco. SANTOS EDITORA.
Ø  HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. CPAD.
Ø  MCMURTRY, Grady Shannon. As Festas Judaicas do Antigo Testamento. SANTOS EDITORA.
Ø  REIFLER, Ulrich Hans. A Ética dos Dez Mandamentos. VIDA NOVA.
Ø  STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
 
 
 
 
Por Rede Brasil de Comunicação.