Dt
5.1-10, 16-21,29
INTRODUÇÃO
Nesta lição, estudaremos a íntima
relação entre o Antigo e o Novo Concerto, compreendendo como os princípios
estabelecidos na Lei encontram seu cumprimento e expressão plena no Novo
Testamento. Veremos que a verdadeira Êx pressão de amor a Deus se manifesta na
obediência à Sua Palavra. Analisaremos como os quatro primeiros mandamentos, em
seus desdobramentos, conduzem o homem a um relacionamento de amor, reverência e
fidelidade para com Deus. Por fim, destacaremos que os seis últimos
mandamentos, em seus desdobramentos, orientam o relacionamento do homem com o
próximo, demonstrando que o amor ao próximo também constitui parte essencial da
vontade de Deus.
I.
O CONCERTO REITERADO EM HOREBE
A aliança Mosaica originalmente
concedida no Sinai, em Horebe, foi reiterada por Moisés antes do povo possuir a
terra prometida. Observemos:
1. O concerto em
Horebe ultrapassa as gerações.
O Decálogo (dez mandamentos)
descrito em (Dt 5.1-21) não é um novo concerto, mas uma recapitulação da lei
que já havia sido dada no Sinai (Êx 20.1-17). Moisés disse à geração que
entraria na terra prometida que Deus não esqueceu do “concerto que jurou
a teus pais” (Dt 4.31). Em seguida, afirma: “O SENHOR, nosso
Deus, fez conosco concerto em Horebe. Não foi com nossos pais que fez o SENHOR
este concerto, senão convosco, todos os que hoje aqui estamos vivos” (Dt
5.2,3). Afinal, com quem Deus fez o concerto? Com os pais, que pereceram no
deserto, ou com os filhos prestes a possuir a terra? Deus fez uma aliança com
aquela primeira geração, os pais (Êx 20.1-17) e não estava fazendo uma nova
aliança com a geração seguinte, os filhos (Dt 5.1-21). A palavra “concerto”
nunca aparece no plural no AT. Não existem “concertos”. O que Moisés pede é que
seus contemporâneos se apropriem integralmente do primeiro concerto. Aquela
geração deveria se apropriar da palavra de Deus que fora dada à primeira
geração. Moisés sequer insinua que Deus precisasse fazer algo além ou que sua
obra estivesse incompleta. Deus já tinha realizado todo o necessário para que a
obediência fosse possível a todas as gerações (Hamilton, 2007, p. 452).
2. O concerto em
Horebe e o novo concerto.
O concerto feito por Deus em Horebe
tem sinais muito semelhantes aos do dia de Pentecostes. No Sinai houve “sonido
mui forte” (Êx 19.16) e “Deus descera [...] em fogo” (Êx
19.18), características notáveis na descida do Espírito Santo (At 2.1-3). O
teólogo McMurtry diz: “1.500 anos depois dos eventos no Monte Sinai, Deus
marcou outro encontro com o Seu povo. Tudo aquilo que os judeus provaram no
Monte Sinai: o fogo, o vento e as línguas, também seriam experimentados pelos
judeus cristãos em Jerusalém, evento esse que aconteceu exatamente no mesmo dia
no calendário” (2023, p. 93). Conforme (Êx 20.18): “todo o povo
viu [...] sonido”, isto é, foram “vistas” vozes, “línguas”, no Monte
Sinai. Experiência muito marcante no Pentecoste (At 2.3). Parte da tradição
judaica sustenta que, no Sinai, Deus falou em 70 idiomas diferentes, conforme
McMurtry, semelhante ao ocorrido em (At 2.1-13), promovido pelo Espírito.
3. A vigência da
lei moral.
Na tradição cristã os dez
mandamentos são classificados como “lei moral”. Além dos sinais em Horebe que
são vistos em Pentecoste, o conteúdo da lei moral se perpetuou na Nova Aliança
em Cristo. Jesus indica que os dez mandamentos são fundamentais para a vida
quando falou com o jovem rico (Mt 19.17-19); quando radicalizou as exigências
morais dos dez mandamentos (Mt 5-7); quando afirmou explicitamente que não veio
revogar a Lei (Mt 5.17-19); quando ratificou categoricamente que tudo na Lei se
cumpriria rigorosamente (Mt 5.18) e quando comissionou os discípulos a guardar
tudo o que tinha ensinado (Mt 28.20). O apóstolo Paulo afirmou que a lei é
santa e boa (Rm 7.12). Portanto, os dez mandamentos são válidos para
todos os cristãos de todas as épocas (Reifler, 2016, p. 41).
II. OS QUATRO PRIMEIROS
MANDAMENTOS: AMOR A DEUS
O grande mandamento, conforme
Jesus, é “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a
tua alma, e de todo o teu pensamento” (Mt 22.36-38). A maior expressão
de amor a Deus não se manifesta no conhecimento, execução de dons
extraordinários, numa generosidade estonteante, nem no altruísmo, porque tudo
isso pode ser feito sem amor (1Co 13.1-3). A maior expressão de amor a Deus é a
obediência (Dt 10.12,13; 30.20; 1Sm 15.22,23; Jo 14.15,21,23; 15.10; 1Jo 2.3,4;
5.3). A observância de pelo menos quatro mandamentos redigidos no Sinai revela
se amamos ao SENHOR:
1. Não terás
outros deuses.
O primeiro mandamento no Sinai e
reiterado em (Dt 5.7) trata da seguinte questão: a quem se deve adorar? A
expressão “diante de mim” pode significar “ante minha face” ou “acima de mim”
(Reifler, 2016, p. 59) ou ainda “além de mim” (Hamilton, 2007, p. 219). “A
tentação de Israel (nossa?) não é tanto deixar Deus de lado para servir a
outros deuses, mas adorar a outros deuses além de Deus [...] O povo de Deus não
pode permitir que nada nem ninguém tenha maior prioridade em suas vidas” (Hamilton,
2007, p. 219). Este mandamento confronta diretamente a idolatria e é amplamente
reiterado no NT: (Mt 4.10; At 14.15; Gl 4.8,9; 1Ts 1.9; 1Co 8.4-6; 10.14,20,21;
1Jo 5.21; Ap 22.8,9).
2. Não farás
imagens de Deus.
Este mandamento regula nossa
perspectiva de Deus. É viável fazer projeções dEle? Na Bíblia, “imagem” é uma
representação de alguma coisa real ou irreal, física ou metafísica, por
desenho, pintura, escultura ou projeção humana (Reifler, 2016, p. 73). Mas, se
Deus nunca foi visto (Êx 33.20; Jo 1.18; 1Tm 6.16), como pode ser projetado com
fidelidade numa imagem? A falta de fidelidade da imagem de Deus numa escultura
levaria a veneração e/ou adoração de uma imagem divina não fiel. Deus não
compactua com nenhum tipo de infidelidade, por menor que seja ou por mais bem
intencionada que seja (Dt 4.15,16; At 17.29; 19.26,27; Rm 1.22,23). Ante
Cristo, contudo, pode-se curvar, pois Ele revela com fidelidade a “imagem do
Deus invisível” (Cl 1.15; Jo 14.8,9; Hb 1.3).
3. Não tomarás o
nome de Deus.
A palavra hebraica para “vão”
(Dt 5.11) vem a significar “estar vazio”, no sentido de “não
ter substância, não ter valor”. Qualquer invocação ou menção do nome de
Deus, que seja simplesmente “por fazer”, equivale a tomar o nome
de Deus em vão. Em outras palavras, tomar o nome de Deus em vão é usar seu
divino nome em relação a coisas sem importância, fúteis e insignificantes (Cf.
Lv 19.12; Dt 23.21; Ez 22.28; Rm 2.24) (Hamilton, 2007, p. 221).
4. Lembra-te do
dia de sábado.
Este é o único mandamento do
decálogo que não encontra sua confirmação literal no NT. Jesus dá o devido
valor ao sábado ensinando que é um dia para promover o bem (Mt 12.9-12; Lc
13.10-17; Jo 5.1-18; 9.1-16), preservar a vida (Mt 12.1-8; Lc 14.1-6) e possibilitar
um descanso merecido (Êx 20.20; Dt 5.14; Mc 2.27).
III.
OS SEIS ULTIMOS MANDAMENTOS: AMOR AO PRÓXIMO
O mandamento “amarás o teu
próximo como a ti mesmo” é vívido e marcante nas páginas do NT, porém,
ele é um mandamento citado por Jesus do AT (Lv 19.18). “Amar ao próximo” é
tido como o segundo grande mandamento no novo concerto (Mc 12.31). Ele é
cumprido quando observamos às seguintes ordenanças:
1. Honra teus
pais.
Mais do que “obedeça a teu
pai e a tua mãe”. Obedecer é mais fácil que honrar. É possível odiar e
obedecer, mas é impossível odiar e honrar. A gravidade da ordem é reforçada
pela escolha do verbo “honrar”. Jesus citou e corroborou o quinto mandamento
(Mt 15.4; Mc 7.10), também o apóstolo Paulo o fez em (Ef 6.2) (Hamilton, 2007,
p. 222).
2. Não matarás.
A palavra hebraica rasah,
“não assassinarás”, tem sido aceita como tradução viável, pois tem-se em
vista o assassinato violento de um inimigo pessoal (Nm 35.27,30; 2Rs
6.32). Esse verbo nunca é usado para o assassinato em legítima defesa (Êx
22.2), morte acidental (Dt 19.5) e execução de assassinos (Gn 9.6). É usado
para o suicídio, mas não para o homicídio não premeditado (Êx 22.12-14) ou
acidental (Nm 35.23) (Reifler, 2016, p.112). Veja também: (Mt 5.21,22; 19.18;
Mc 10.19; Lc 18.20; Rm 13.9; Tg 2.11; 4.2; 1Jo 3.15).
3. Não
adulterarás.
“Era considerado adultério a
relação sexual entre um homem casado ou solteiro com a mulher de outro homem. O
crime era, principalmente, contra o marido traído, o próximo. A questão
era considerada tão grave que a pena para este pecado era a morte (Dt
22.22-28). Jesus ainda ampliou este mandamento afirmando que não apenas a
prática sexual em si, mas a cobiça desta prática já é considerada adultério.
Veja o que ele diz em Mateus 5.27-28” (Gusso, 2020, p. 60). Observe ainda: (Mt
19.18; Mc 10.19; 1Co 5.11; 6.9,10; 10.8; 1Ts 4.3-5; Hb 13.4).
4. Não furtarás.
“Parece estar claro neste
mandamento que a propriedade do próximo deve ser respeitada, ninguém deve
lançar mão daquilo que não é seu. Talvez, ainda, o sentido original deste
mandamento diga respeito a mais do que aquilo que é conhecido como furto na
atualidade, ele pode estar apontando para o rapto de uma pessoa com a intenção
de vendê-la como escravo, assim como foi feito com José (Gn 37)” (Gusso, 2020,
p. 60). No NT, encontramos: (1Co 5.10,11Rm 13.9; Ef 4.28).
5. Não dirás falso
testemunho.
É bem possível que a aplicação
original dessa lei se referia a testemunhos falsos em juízo ou em transações
oficiais e negócios em geral. A partir da história de Acabe, Jezabel e a vinha
de Nabote, fica evidente que falsas acusações e testemunhos fraudulentos
podem ser utilizados para tomar do próximo aquilo que lhe pertence por direito (Hamilton,
2007, p. 224). Veja ainda: (Mt 12.36,37; 15.18,19; Jo 8.44; At 5.1-10; 1Tm
1.9,10; Ap 21.8).
6. Não cobiçarás.
Em (Dt 5.21), o termo hebraico “awâ”,
sugere: não desejarás, não almejarás. Todos os nove mandamentos anteriores são
objetivos; este é subjetivo, pois traz proibições ao homem ainda em âmbito
interior. Talvez o motivo para esse mandamento estar no final seja o fato de
que ele está por trás de tantas mortes, adultérios, roubos e mentiras. É a raiz
de muitos problemas (Hamilton, 2007, p. 226). Ver ainda: (Mt 7.21-23; Lc
16.14,15; 1Tm 6.6-10; Tg 1.14,15).
CONCLUSÃO
O chamado à obediência ultrapassa
as gerações. Deus revelou a Sua vontade aos homens por meio de mandamentos que,
na verdade, são princípios eternos que se desdobram ao longo da evolução da
humanidade.
REFERÊNCIAS
Ø GUSSO, Antônio Renato. O
Pentateuco. SANTOS EDITORA.
Ø HAMILTON, Victor P. Manual do
Pentateuco. CPAD.
Ø MCMURTRY, Grady Shannon. As
Festas Judaicas do Antigo Testamento. SANTOS EDITORA.
Ø REIFLER, Ulrich Hans. A Ética
dos Dez Mandamentos. VIDA NOVA.
Ø STAMPS, Donald C. Bíblia de
Estudo Pentecostal. CPAD.
Por
Rede Brasil de Comunicação.

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