Gn
33.1-10
INTRODUÇÃO
I. A PREPARAÇÃO DE JACÓ PARA O
REENCONTRO
1.
O local do despertamento de Jacó.
Após
os anjos de Deus encontrarem Jacó e serem vistos por ele (Gn 32.1,2), é dado
aquele lugar o nome de Maanaim que significa “dois acampamentos”, que segundo
Wycliffe (2007, p.1190): “provavelmente ficava ao sul de Jaboque, um pouco ao
sul da fronteira entre Gade e Manassés (Js 13.26,30; 21.38), a muitos
quilômetros ao sul de Peniel (Gn 32.22,31), em Tell el-Hajjaj, a uma altitude
em que se podia avistar o vale do Jordão”. Foi ali que Jacó decidiu tomar uma
importante atitude: ir em busca da reconciliação com seu irmão Esaú.
2.
A iniciativa de Jacó.
Jacó
decide reatar os laços com o seu irmão Esaú, laços esses que foram rompidos
quando do ato da ministração da bênção da primogenitura por parte do seu pai
Isaque (Gn 27.41-45). Jacó então toma a iniciativa de enviar mensageiro diante
da face de Esaú, de forma a preparar o terreno para um reencontro: E
enviou Jacó mensageiros diante da sua face a Esaú, seu irmão, à terra de Seir,
território de Edom. E ordenou-lhes, dizendo: Assim direis a meu senhor Esaú:
Assim diz Jacó, teu servo: Como peregrino morei com Labão e me detive lá até
agora. E tenho bois, e jumentos, e ovelhas, e servos, e servas; e enviei para o
anunciar a meu senhor, para que ache graça a teus olhos (Gn 32.3-5). A
intenção de Jacó era buscar a paz. Essa deve ser a atitude de todo servo de
Deus (Sl 34.14; Mt 5.9; Rm 12.18; Hb 12.14).
3.
A estratégia preventiva de Jacó.
Os
mensageiros enviados por Jacó trouxeram a seguinte informação: “Fomos a
teu irmão Esaú; e também ele vem a encontrar-te, e quatrocentos varões com ele”
(Gn 32.6). Tal notícia deixou Jacó inquieto e com medo: “Então, Jacó
temeu muito e angustiou-se” (Gn 32.7). De acordo com Beacon (2015, p.
96), o medo invadiu o coração de Jacó e ele imediatamente tomou medidas
defensivas. Isso fez com que Jacó tomasse a seguinte decisão: “[...] repartiu
em dois bandos o povo que com ele estava, e as ovelhas, e as vacas, e os
camelos. Porque dizia: Se Esaú vier a um bando e o ferir, o outro bando
escapará” (Gn 32.7,8). Foi uma decisão tomada dentro da perspectiva de
planejamento humano. Devemos sempre planejar (Gn 41.33-36; Ne 2.11-18; Pv 21.5;
Lc 14.28-30), mas confiando em Deus e submetendo a Ele os nossos planos e
projetos (Pv 16.3).
4.
A oração de súplica.
Mesmo
tendo tomado a decisão de dividir em dois bandos o povo que com ele estava,
Jacó fez algo ainda mais importante, ele buscou socorro em Deus: “Disse
mais Jacó: Deus de meu pai Abraão e Deus de meu pai Isaque, ó Senhor, que me
disseste: Torna à tua terra e à tua parentela, e far-te-ei bem; menor sou eu
que todas as beneficências e que toda a fidelidade que tiveste com teu servo;
porque com meu cajado passei este Jordão e, agora, me tornei em dois bandos.
Livra-me, peço-te, da mão de meu irmão, da mão de Esaú, porque o temo, para que
porventura não venha e me fira e a mãe com os filhos” (Gn 32.9-11).
Aquele que serve ao Senhor deve buscar refúgio nEle em tempos de perigo (Sl
11.1; Sl 46.1; Sl 57.1; Sl 91.1,2; Pv 18.10).
5.
O presente como propiciação.
Após
a oração, Jacó tomou um presente para o seu irmão Esaú (Gn 32.13). Ele separou:
“duzentas cabras e vinte bodes; duzentas ovelhas e vinte carneiros;
trinta camelas de leite com suas crias, quarenta vacas e dez novilhos; vinte
jumentas e dez jumentinhos. E deu-o na mão dos seus servos, cada rebanho à
parte [...]” (Gn 32.14-16). Jacó então deu ordem aos bandos para que
quando Esaú os encontrasse e perguntasse “De quem és, para onde vais, de
quem são estes diante da tua face?” (Gn 32.17), eles deveriam
responder: “São de teu servo Jacó, presente que envia a meu senhor, a
Esaú; e eis que ele mesmo vem também atrás de nós” (Gn 32.18). Jacó
assim procedeu “porque dizia: Eu o aplacarei com o presente que vai
diante de mim e, depois, verei a sua face; porventura aceitará a minha face”
(Gn 32.20). Podemos atentar para o princípio de que o “presente dado em
segredo acalma a ira” (Pv 21.14); o presente “abre portas” (Pv 18.16); o
presente “apazigua a ofensa” (Pv 17.8).
II. A POSTURA DE JACÓ DIANTE DE ESAÚ
1.
O ânimo de Jacó.
“E
levantou Jacó os olhos e olhou, e eis que vinha Esaú, e quatrocentos homens com
ele” (Gn 33.1). De acordo com Henry (2008, pp. 166,167):
“Jacó percebeu a aproximação de Esaú. Alguns acham que seu levantar de olhos
denota sua alegria e sua confiança, em contraste com um semblante abatido.
Tendo submetido o seu caso a Deus através da oração, ele seguiu o seu caminho,
e o seu semblante já não era mais triste. Note que aqueles que entregaram as
suas preocupações a Deus podem olhar para o que os espera com satisfação e paz
de espírito, aguardando alegremente o resultado, seja ele qual for. Venha o que
vier, nada pode dar errado para aquele cujo coração está firme e confiante em
Deus”.
2.
A disposição da família de Jacó.
Ao
avistar Esaú, Jacó dispõe sua família de forma estratégica (Gn 33.1,2). Jacó
colocou as servas e seus filhos na frente, depois Leia e seus filhos, e Raquel
com José por último (Gn 33.1,2). Ele ainda não estava certo das intenções do
irmão e por isso fez esse rearranjo da família. Segundo Beacon (2006, p. 98),
esta ordem indica algo do valor relativo que ele dispensava aos membros de sua
família. Não podemos deixar de observar que havia uma predileção por parte de
Jacó. Em momentos de crise, a natureza humana revela suas prioridades. Esaú é
um próprio exemplo disso. Na fome momentânea, ele trocou o seu direito de
primogenitura por comida (Gn 25.29–34). Nesse caso, a necessidade imediata
expôs sua prioridade: a satisfação presente acima da herança espiritual.
3.
A coragem de ir adiante.
Após
dispor de forma estratégica a sua família, a Bíblia diz em Gênesis 33.3 que
Jacó “passou adiante deles”, indicando que ele estava tomando a
iniciativa em ir ao encontro de Esaú, demonstrando a sua coragem de enfrentar a
situação tensa entre eles. A reconciliação exige, muitas vezes, da parte que
errou, a iniciativa de se aproximar (Mt 5.23,24). Quando Tiago diz que devemos
confessar as vossas culpas uns aos outros (Tg 5.16), aqui estão implícitas duas
questões: (1) o ato de reconhecer o erro; (2) atitude de se aproximar do outro.
4.
A reverência de Jacó diante de Esaú.
Ao
passar adiante dos seus familiares, Jacó “inclinou-se à terra sete vezes,
até que chegou a seu irmão” (Gn 33.3). A expressão “inclinou-se” (hb.
shachah) refere-se a prostar-se, ajoelhar-se, indicando um ato de
humilhação e respeito. Aqui Jacó se prostra sete vezes (no contexto bíblico,
geralmente simboliza totalidade, plenitude), o que ilustra sua reverência,
assim como demonstra um profundo respeito (Gn 23.7; Gn 42.6; 1Sm 24.8) e um
desejo de reconciliação plena. Segundo Henry (2008, p. 167), “a maneira de
restabelecer a paz onde ela foi quebrada é cumprir o nosso dever, e apresentar
os nossos cumprimentos, em todas as ocasiões, como se ela nunca tivesse sido
rompida”.
III. A REAÇÃO DE ESAÚ E AS LIÇÕES
PARA A IGREJA
1.
A reação de Esaú.
Para
o pastor Elinaldo Renovato (2026, p. 142), “o coração de Jacó batia acelerado.
Na mente dele, talvez tenha tido sentimentos de medo e de profunda preocupação.
Provavelmente, ele esperava ver no rosto de Esaú um semblante frio, expressando
ira e olhar de vingança para com o irmão que o enganara várias vezes. Mas
diferentemente do que ele imaginava, a Bíblia diz que “Esaú correu-lhe ao
encontro e abraçou-o; e lançou-se sobre o seu pescoço e beijou-o; e choraram”
(Gn 33.4). Esta atitude de Esaú revela não apenas perdão, mas desejo genuíno de
reencontro. Um homem irado não corre ao encontro de seu ofensor. O abraço
quebrou vinte anos de silêncio e inimizade. O choro conjunto dissolveu a mágoa
do passado.
2.
Lições para a igreja.
Na
reconciliação de Jacó e Esaú podemos extrair algumas lições para a igreja do
Senhor Jesus:
- O perdão verdadeiro vence a memória do passado (Gn 50.17; Ef 4.32);
- Perdoar reflete o caráter de Deus (2Co 5.18;19; Cl 3.13);
- Reconciliação envolve, quando possível, reparação de danos (Gn 33.11; Lc 19.11);
- A reconciliação não ignora responsabilidades (Tg 2.17; Mt 3.8);
- Na reconciliação há verdade (Sl 119.29; Pv 8.7; Ef 4.25);
- O arrependimento genuíno produz frutos (Mt 3.8);
- A reconciliação produz adoração (Gn 33.20);
- Cristo é o modelo supremo de reconciliação (Ef 2.14; Cl 1.20).
3.
A reconciliação produz restauração da comunhão.
O
reencontro entre Jacó e Esaú não resultou apenas no encerramento de um conflito
antigo, mas promoveu a restauração da comunhão entre dois irmãos que
permaneceram separados por muitos anos. O texto bíblico mostra que o perdão de
Esaú e a atitude humilde de Jacó permitiram que uma história marcada por
engano, medo e ressentimento fosse substituída por um relacionamento restaurado
(Gn 33.4). A reconciliação verdadeira possui esse poder: ela remove barreiras,
cura feridas e aproxima novamente aqueles que estavam separados. Da mesma
forma, a Igreja é chamada a preservar e cultivar a unidade do corpo de Cristo,
pois a comunhão é uma das evidências da atuação divina entre os seus filhos (Sl
133.1; Jo 17.21; Ef 4.3). Onde existe reconciliação genuína, a paz substitui a
divisão, o amor vence a amargura e a graça de Deus se manifesta de forma
visível no meio do seu povo.
CONCLUSÃO
A reconciliação de Jacó com Esaú é um monumento à graça de Deus, que transforma corações, desarma inimigos e restaura relacionamentos impossíveis. Ela nos ensina que a humildade, a iniciativa de buscar a paz e o reconhecimento da graça divina são os caminhos para restaurar a comunhão quebrada. Que possamos, como a igreja do Senhor Jesus, sermos como Jacó, que aproximou-se com humildade e, como Esaú, que recebeu o seu irmão com um perdão.
REFERÊNCIAS
Ø EARLE,
Ralph et. al. Comentário Bíblico Beacon – Vol. 7, CPAD.
Ø HENRY,
Matthew. Comentário Bíblico Matthew Henry – Vol. 1. CPAD.
Ø PFEIFFER,
Charles F. et al. Dicionário Bíblico Wyclliffe. CPAD.
Ø RENOVATO,
Elinaldo. Homens dos quais o Mundo não Era Digno. CPAD.
Ø STAMPS,
Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
Por
Rede Brasil de Comunicação.

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