Lc 18.18-24
INTRODUÇÃO
Nesta
lição estudaremos sobre os ensinos veterotestamentário e neotestamentário com
relação ao dinheiro, bens e posses. Assim, abordaremos o referido assunto na visão
secular, cristã e judaica. Ressaltaremos os ensinos do Mestre Jesus sobre o
assunto, e ainda mencionaremos o surgimento da Teologia da Prosperidade que,
infelizmente, ainda prevalece em muitas igrejas. Desejo a todos uma excelente
aula!
I.
A VISÃO JUDAICA SOBRE DINHEIRO, BENS E POSSES.
As
Escrituras Sagradas têm muito a dizer sobre a prosperidade do povo de Deus e
grande parte desse ensino encontra-se no Antigo Testamento. Todavia, é bom
lembrar que a prosperidade no Antigo Pacto não está associada apenas ao acúmulo
de posses e bens ou à saúde perfeita, mas, sobretudo, a um íntimo
relacionamento com o Senhor. Logo, é possível alguém ser rico, possuir boa
saúde e muitos bens e mesmo assim não ter uma vida abundante.
1. No Antigo Testamento.
Riqueza e
pobreza no Antigo Testamento andam lado a lado (Rt 2.1,2). Uma leitura
cuidadosa ajuda a corrigir duas ideias erradas sobre os conceitos de pobreza e
riqueza. A primeira mostra a riqueza como dádiva de Deus, e a pobreza como
marca do julgamento divino. A segunda associa a riqueza à maldade e a pobreza à
piedade. Fica logo perceptível que ninguém é amaldiçoado por ser pobre e
tampouco abençoado por ser rico. Tanto o pobre como o rico dependem do favor de
Deus (1 Sm 2.7,8). Aliás, na Teologia, isso é definido como “graça comum”, um favor divino dado aos
homens indistintamente. É essa graça que faz a chuva vir sobre os bons e os
maus (Mt 5.45).
No
entanto, a ideia veterotestamentária de prosperidade transcende o simples
acúmulo de bens materiais ou o bem estar físico. Na verdade, a compreensão que
se tem no Antigo Pacto é que a prosperidade, antes de tudo, é espiritual para
só secundariamente ser material (Sl 73). Constata-se pelas Escrituras que
existem outros valores, embora não materiais, tidos como grandes riquezas e
verdadeiros tesouros (Pv 10.22).
Dentre as
várias coisas que a Antiga Aliança mostra como sendo de valor maior do que bens
materiais estão, por exemplo, o conhecimento (Pv 3.13; 20.15), a integridade
(Sl 7.8; 78.72), a justiça (Sl 15.2; Pv 8.18; 14.34), o entendimento (Pv 15.32;
19.8), a humildade e a paz (Pv 15.33; 18.12; 12.20). Reconhecer, portanto, o Senhor
como a fonte de toda prosperidade é a melhor forma de proteger-se da ganância
que persegue quem possui riquezas (Sl 127.1,2).
Vale ainda ressaltar o comentário do historiador William
L. Coleman que mostra que um estudo criterioso sobre a pobreza no mundo bíblico deve levar
em conta alguns fatores determinantes. Com acerto, ele diz: “Eram vários os
principais fatores que contribuíam para a existência de um grande número de
pobres em Israel. É claro que havia muitas variáveis. Mas para entendermos bem
o quadro geral, precisamos considerar alguns dos obstáculos com que eles se
defrontavam.
ü
Impostos. O
sistema de impostos constituía um grande peso para muitas famílias, para os
pequenos agricultores e negociantes. Durante toda a história da nação, os
governos impuseram pesadas taxas ao povo em geral, com o objetivo de realizar
seus projetos de construção ou cobrir os custos de suas operações militares. E
foi justamente o excesso de impostos baixados pelo rei Salomão que ocasionou a
divisão do reino.
ü
Desemprego. Nas
áreas rurais, a presença de escravos não afetava muito a economia, mas nas
cidades sim, pois gerava forte desequilíbrio nos mercados de empregos. Como o
preço dos escravos era muito baixo, os ricos chegavam a ter um servo
simplesmente para conduzir o seu cavalo. Por isso o homem livre tinha que
aprender um ofício, se quisesse conseguir um bom salário.
ü
A
morte do chefe da família. A perda do chefe da casa, que podia ser
causada por enfermidade, acidente ou guerra, geralmente deixava a família na
pobreza, principalmente se os filhos fossem pequenos.
ü
Seca
e fome. Às vezes a própria natureza destruía rapidamente toda a colheita
de uma temporada. A seca, o excesso de pragas, ou chuva em demasia fora de
época, bem como outras calamidades naturais acabavam com todo o sustento de uma
família de uma hora para outra (SI 32.4).
ü
Agiotagem.
Pela lei, era proibido cobrar juros de empréstimos feitos a pobres (Ex 22.25).
Mas apesar dessa recomendação divina, muitos credores tinham atitudes impiedosas,
cobrando juros exorbitantes e empregando métodos cruéis para receber o
pagamento da dívida. Isso sempre foi um problema grave para os Israelitas,
durante toda a sua história, e vários escritores bíblicos denunciaram esses
excessos”.
Ora, com tantos limites não era de admirar que os pobres se
tornassem presas fáceis dos mais ricos. Assim, a religião, em vez de cultivar
os valores da alma, fomentava apenas um legalismo exterior. Jesus denunciou
essa religiosidade farisaica (Mt 23).
2. No Novo Testamento.
Nos
dias de Jesus, a cultura judaica não enxergava a posse de bens materiais como
um mal em si; pelo contrário, eles tinham a posse de bens materiais e das
riquezas como uma dádiva de Deus, e fundamentavam este pensamento nas figuras
de Abraão, Salomão e Jó. Realmente, todas as bênçãos provêm de Deus (Pv 10.22; Tg
1.17)! No entanto, este fato mostra o quão distantes estavam do real ensino veterotestamentário como vimos anteriormente. Assim, a ideia era que os ricos
prosperavam porque sobre eles estava o favor de Deus. Por isso, a prosperidade
passou a ser associada à piedade.
Este
fato é perceptível diante do assombro dos discípulos ao ouvirem Jesus dizer: “Quão
dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! Deveras, é mais
fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino
de Deus” (Lc 18.24,25). Chocados diante dessa revelação feita por
Jesus, os discípulos disseram: “Logo, quem pode salvar-se?”.
Observa-se, pois, que a crença de que a posse de bens materiais e das riquezas
era um sinal do favor de Deus, o que incluía também a salvação. Porém, Jesus desfez
todo o mal entendido!
II.
A VISÃO DE JESUS SOBRE DINHEIRO, BENS E POSSES.
O
Pr. José Gonçalves comentando sobre o comércio da autoajuda, em seu livro ‘Lucas
– O Evangelho de Jesus, o Homem Perfeito’, diz: “Até bem pouco tempo, ninguém poderia imaginar
que o nome “Jesus”, o carpinteiro de Nazaré, pudesse se tornar uma mercadoria
valiosa. Ninguém poderia imaginar também que ele fosse transformado em uma das
marcas mais rentáveis do mundo. Jesus, que já era vendido em lojas de
suvenires, foi transformado com grande sucesso em mercadoria literária, podendo
ser encontrado praticamente em todas as livrarias.
O comércio da
autoajuda é o que mais tem crescido e que mais tem lucrado com esse comércio em
torno de Jesus. Tenho em mãos alguns desses títulos: Jesus, o homem mais sábio que já existiu; Jesus, o maior filósofo que
já existiu; Jesus, o maior psicólogo que já existiu; Jesus, o maior líder que
já existiu; Jesus, o mestre dos mestres; Jesus, o mestre da sensibilidade;
Jesus, o mestre da vida; Jesus, o mestre do amor, Jesus, o mestre inesquecível
e Jesus, o milionário de Nazaré.
Quem poderia
imaginar, por exemplo, que aquEle que certa feita disse não ter onde pousar a
cabeça fosse transformado em o “milionário de Nazaré”? Esta é exatamente a
proposta da escritora Catherine Ponder, uma das autoras de autoajuda mais lidas
no mundo, quando escreveu o seu livro O Milionário de Nazaré. As informações
sobre Ponder dão de conta que ela é considerada a mais notável autora sobre
prosperidade nos Estados Unidos”.
Diante
do Jesus apresentado por essa escritora que se diz “evangélica”, o comentarista
do trimestre diz: “Algumas perguntas são inevitáveis: Jesus era de fato um
milionário que Ponder insiste em afirmar que era? Jesus incentivou as pessoas a
serem ricas e terem muito dinheiro? Qual de fato foi a relação de Jesus com o
dinheiro? Ele era o milionário de Nazaré ou um simples carpinteiro que como os
demais camponeses de seu tempo lutaram pela sobrevivência? Não há como não
contrastar o “Jesus” da autoajuda com o Jesus, o homem perfeito, apresentado
nos evangelhos”.
Como se pode perceber, o Jesus dos livros de autoajuda não é o
mesmo do apresentado nos Evangelhos. O Apóstolo Paulo já em seu tempo advertiu
a igreja desse perigo dizendo: “Pois se alguém for pregar-vos outro Jesus
que nós não temos pregado... de boa mente o suportais” (2 Co 11.4).
Desse modo, o que o Jesus dos Evangelhos nos ensina sobre dinheiro, bens e
posses? Vejamos:
Em Mateus 6.19-24, um dos ensinos do Grande Sermão do Monte, Jesus
disse: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e
onde os ladrões arrombam e roubam. Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a
traça e nem a ferrugem destroem e onde os ladrões não arrombam nem roubam. Pois
onde estiver vosso tesouro, aí estará o vosso coração. A lâmpada do corpo são
os olhos. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os
teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Portanto, se a luz
que há em ti são trevas, quão grandes são essas trevas! Ninguém pode servir a
dois senhores. Ou há de odiar a um e amar o outro, ou se devotará a um e
desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”.
O Pr. Geremias do Couto comentando sobre Os Perigos das Riquezas
com base neste texto, diz: “Para
argumentar em favor de sua tese, o Senhor retorna outra vez ao seu ponto de
partida no Sermão do Monte: o coração (v.21). Ele quis dizer, com isso, que
aquilo que somos interiormente determina as nossas propriedades, e estas, por
sua vez, roubam todos os nossos afetos. Deste modo, à medida que o apego às
riquezas se vai tornando o nosso objetivo primordial, todo o ânimo de nossa
alma será transferido em favor dessa busca quase sempre intranquila, onde o
dinheiro (e tudo o que ele representa) poderá transformar-se num ídolo entronizado
em nosso coração (1 Tm 6.10).
Outra figura que
Jesus empregou com o mesmo significado foi a importância dos olhos para o corpo
(vv.22,23). Ou seja, se forem saudáveis e direcionados trarão benefícios ao
organismo. Caso contrário, as consequências serão negativas. O apego às
riquezas, de igual modo, surte o mesmo efeito. Quando elas se apossam de nossa
vida, distorcem a nossa visão e acabam por perder o rumo da nossa vida
espiritual – as trevas recaem sobre nós – por ficarmos apegados ao materialismo
e aos valores de uma sociedade secularizada, onde o que conta é a prevalência
do hedonismo (Mt 24.37-39; Lc 12.13-21). Como um abismo chama outro abismo, o
apego às riquezas nos poderá levar a um ponto onde ficaremos com o coração
dividido entre Deus e Mamom. No v. 24 Jesus mostra ser impossível alguém ser
leal a dois senhores simultâneos. Um ou outro prevalecerá. Se o apego aos bens
terrenos dominar a nossa mente, isto forçosamente nos levará à perda da fé” (ver Jr 17.11; Mc 4.16-19).
Em Mateus 6.25-34, prosseguindo com os ensinamentos do Sermão do Monte,
Jesus diz: “Por isso, vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que
haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo
que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do
que a vestimenta? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, nem
ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito
mais valor do que elas? E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados,
acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, porque andais
solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham, nem
fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como
qualquer deles. Pois, se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e
amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pequena
fé? Não andeis, pois, inquietos, dizendo: Que comeremos ou que beberemos ou com
que nos vestiremos? (Porque todas essas coisas os gentios procuram.) Decerto,
vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas essas coisas; Mas buscai
primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão
acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de
amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal” (Ver comentário deste texto no tópico III da
lição anterior).
Em Lucas 12.13-21, Jesus narra a parábola do rico insensato
com a finalidade de, mais uma vez, mostra a falibilidade das riquezas terrenas.
Porém, bem antes, ele adverte
os discípulos dizendo: “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; a
vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui”
(Lc 12.15). A seguir, o Mestre prossegue dizendo: “O campo de homem rico produziu
com abundância. Então ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não
tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus
celeiros, e edificarei outros maiores, e aí recolherei todo o meu produto e
todos os meus bens. Então direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos
bens para muitos dias. Descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco,
esta noite te pedirão a tua alma. Então o que tens preparado, para quem será?
Assim é aquele que para si ajunta tesouros, mas não é rico para com Deus”.
Como
se vê, o Jesus dos livros de autoajuda nada tem a ver com o Jesus dos
Evangelhos que, além de todos esses ensinamentos, também afirmou: “Vendei
o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas que não se envelheçam,
tesouros nos céus que nunca acabe, onde o ladrão não chega e a traça não
consome” (Lc 12.33). Se Jesus que era o próprio Deus encarnado não teve
nenhuma regalia, porque nós, inferiores a Ele haveremos ter? A qual desses
Jesus você está servindo, os dos livros de autoajuda ou o das Escrituras
Sagradas? Reflita!
III.
O SURGIMENTO DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
Este movimento, que surgiu no EUA, alastrou-se rapidamente
pela América Latina e tem feito muitas igrejas abandonarem o genuíno Evangelho. A Teologia
da Prosperidade é uma teologia centrada na saúde e na prosperidade material,
não na salvação em Jesus Cristo. Para se entender o surgimento da
Teologia da Prosperidade, é preciso conhecer um pouco da história de Phineas Parkhurst Quimby (1802-1866),
criador do chamado “Novo Pensamento”.
Quimby estudou espiritismo, ocultismo, parapsicologia e hipnose e, além de
panteísta e universalista, acreditava também que o homem tem parte na
divindade. Por isso, defendia que o pecado e a doença existem apenas na mente.
Mary Baker Eddy (1821-1910), fundadora da “Ciência
Cristã”, tornou-se discípula de Quimby após ser, supostamente, curada por
ele. Assim, a crença
que diz ser possível ao cristão viver em total saúde e prosperidade financeira
é resultado da junção dessas ideias. A ponte entre as crenças do Novo
Pensamento, Ciência Cristã e a fé propriamente dita, foi feita por E. W. Kenyon e posteriormente por Kenneth E. Hagin.
Kenyon foi um cristão devoto, mas contaminou-se com os
ensinos da Ciência Cristã. Já Kenneth E. Hagin foi influenciado por Kenyon e
deste obteve a maioria dos seus ensinamentos. Hagin fundou seu ministério
passando a divulgar a Teologia da Prosperidade ou Confissão Positiva. Ao pregar
que os cristãos não podem sofrer ou ficar doentes e que devem tornar-se ricos à
custa de sua fé, esse ensino tem produzido uma geração de crentes interesseiros
e materialistas.
Deus “tornou-se” refém de
leis espirituais que Ele supostamente teria criado. O segredo é descobrir como
usar tais leis e assim conseguir o que quiser. Uma das mais utilizadas é a do determinismo. Fórmula essa que tem a
força de mandar até mesmo em Deus! Uma vez que essas distorções passaram a ser
reproduzidas em todo o mundo, não tardaram a chegar aqui através dos que andam
a procura de novidades, desprezando a suficiência das Escrituras (Sl 119.14,72;
Mt 4.4; Jo 17.17). Assim,
contrariando o que a Bíblia diz, que o homem é estruturalmente pó (Gn 2.7;
3.19), a Teologia da Prosperidade afirma que os homens são “pequenos deuses”.
E baseiam-se equivocadamente em uma interpretação forçada do texto de Salmos
82.6. Desse modo, a divinização do homem, a demonização da salvação e a negação
do sofrimento são os principais pilares da Teologia da Prosperidade.
Portanto,
a primeira consequência danosa que a Teologia da Prosperidade causa pode ser
vista nos púlpitos. O ministério que anteriormente era vocacional tornou-se, em
alguns círculos, algo meramente profissional. Os pastores passaram a ser vistos
como executivos bem-sucedidos! O pastor agora é visto como um profissional
liberal e não como um ministro de Deus. Segundo a Teologia da Prosperidade, ele
não mais pastoreia (1 Pe 5.2), mas gerencia sua igreja. A igreja passa a ter a
mesma dinâmica administrativa de uma grande empresa. A fé tornou-se um bem de
consumo e os adoradores foram alçados a consumidores. Já existem denominações
que contratam institutos de pesquisas para verificar se abrir uma igreja em
determinado bairro é viável. Pode ser que não seja lucrativo (1 Tm 6.5)!
Não bastasse tudo isso, essa
maldita Teologia da Prosperidade tem gerado milhares de crentes narcisistas e
hedonistas. O narcisista é aquele que só pensa em si e nunca nos outros (Fp
2.4). Já o hedonista é aquele que vive em função dos prazeres. Estes estão
morrendo e matando uns aos outros. Outra consequência terrível da Teologia da
Prosperidade é a perda dos ideais cristãos. Ao criar essa mentalidade de
mercado e transformar os crentes em consumidores, a Teologia da Prosperidade
acabou esvaziando os ideais do Reino de Deus. Para que buscar o perfeito estado
eterno se é possível possuir tudo agora? A escatologia bíblica é trocada por
uma teologia puramente utilitarista (Mt 6.33; Cl 3.2).
IV.
A VISÃO SECULAR E CRISTÃ SOBRE DINHEIRO, BENS E POSSES.

O assunto “dinheiro” não é fácil de ser tratado no
meio evangélico. Muitos hoje têm sido levados por caminhos nada bíblicos quando
o assunto é dinheiro. Isto significa que a filosofia de vida de muitos que se
dizem cristão, ante a essa temática como também de outras, mais se parecem com
a perspectiva secular que a cristã. É bem verdade, que o secularismo e o
materialismo encontram-se hoje impregnados na vida daqueles que deveriam ter uma
mentalidade renovada (Rm 12.2) e a nobre prática das boas obras (Ef 2.10). Aliás,
o que são o secularismo e materialismo? Segundo o Pr. Claudionor de Andrade, o materialismo é a doutrina que
ensina ser a matéria a realidade última do Universo. É a negação sistemática
das realidades espirituais. Já o secularismo é a doutrina que ignora os
princípios espirituais na condução dos negócios humanos. O secularismo, ou
materialismo, tem o homem, e somente o homem como a medida de todas as coisas. Dessa
forma, Mamom tem avançado no arraial cristão e contaminado a muitos com sua
doutrina – a Teologia da Prosperidade.
Diante dessa lamentável realidade dos dias
hodiernos, o Pr. Gonçalves comenta: “O cristianismo por
ser uma crença de natureza escatológica não estimulava a aquisição de posses
materiais. Os primitivos cristãos, incluindo os apóstolos, mantinham a
expectativa de que Jesus poderia voltar ainda na sua geração. Isso fazia com
que a preocupação com a propagação da mensagem do reino se tornasse sua
principal fonte de motivação e não o acúmulo de bens terrestres. Acusar as
gerações posteriores de cristãos de terem implantado uma mentalidade de pobreza
na igreja não condiz com os fatos históricos. Essa sedução pela riqueza que
acabou contaminando a teologia cristã provém de ensinos pagãos e até mesmo de
técnicas xamãs e não dos ensinos do Novo Testamento”. Verdade!
Por
isso, o Apóstolo João enfatizando a promessa de Cristo, diz: “E
esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna” (1 Jo 2.25). Ao citar
este texto, o Apóstolo faz menção ao texto de seu evangelho, que diz: “Na
casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim. eu vo-lo teria dito. Vou
prepara-vos lugar. E se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos
levarei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também” (Jo
14.2,3). Portanto, esses textos seriam suficientes para afirmar que a
perspectiva cristã não incentiva a busca pela riqueza, pelo contrário, ela
desestimula. Vejamos, pois, mais alguns textos nesse sentido:
“Se
esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais infelizes de todos os homens”
(1 Co 15.19).
“Não
digo isto por causa de necessidade, pois já aprendi a contentar-me em toda e
qualquer situação. Sei passar necessidade, e também sei ter abundância. Em toda
maneira, e em todas as coisas aprendi tanto a ter fartura, como a ter fome,
tanto a ter abundância, como a ter padecer necessidade” (Fp 4.11,12).
“Portanto,
se fostes ressuscitados com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde
Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e
não nas que são da terra” (Cl 3.1,2).
“Porque
nada trouxemos para este mundo, e nada podemos levar dele; tendo, porém,
sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Mas os que querem ficar ricos
caem em tentações e em laços, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as
quais submergem os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é a
raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se
traspassaram a si mesmos com muitas dores” (1 Tm 6.7-10).
“Ouvi,
meus amados irmãos: Não escolheu Deus aos que são pobres aos olhos do mundo
para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o ama? Mas
vós desonrastes o pobre. Não são os ricos os que vos oprimem e vos arrastam aos
tribunais? Não são eles os que blasfemam o bom nome daquele a quem pertenceis?”
(Tg 2.5-7).
“Agora,
vós, ricos, chorai, e pranteai, por causa das misérias que sobre vós hão de
vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e as vossas vestes estão comidas de
traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujam. A sua ferrugem dará
testemunho contra vós, e devorará a vossa carne como fogo. Entesourastes nos
últimos dias” (Tg 5.1-3).
Como
se pode constatar, o Evangelho desestimula a busca da riqueza pela riqueza, o
consumismo desenfreado. No entanto, já existem igrejas que além de não
praticarem tais versículos, também proíbem a leitura dos tais. Todavia, não
devemos fazer da vida um estilo materialista contrariando as verdades bíblicas!
V.
A VISÃO DA MORDOMIA CRISTÃ SOBRE DINHEIRO, BENS E POSSES.
Para alguns o termo “mordomia”
pode significar regalia, descanso ou coisas semelhantes. Porém, segundo o Pr.
Claudionor de Andrade, o termo provém do grego oikonomia e refere-se a
utilização responsável dos recursos que o Senhor colocou-nos à disposição.
Entre estes recursos, acham-se os talentos naturais e espirituais, os haveres
materiais, o tempo e a própria vida. Assim, o mordomo é o administrador de uma
casa, ou dos bens de outrem. As palavras família, casa, pai de família, bens,
mordomo, servo e administrador estão ligadas ao sentido da palavra mordomo. Do
ponto de vista bíblico, aplicável e prático, mordomia é a administração da
nossa vida individual em toda a sua extensão física, moral, material e
espiritual. Todas as atividades pessoais do cristão devem ser administradas sob
a exata aferição da Palavra de Deus. Neste particular, dois fatores devem ser
observados:
1. Avaliação correta do
dinheiro.
Não é o dinheiro que “é a
raiz de toda espécie de males”, mas “o amor do dinheiro” (1 Tm
6.10). É esse amor idolatrado que torna a pessoas vítimas da ganância, da
presunção e da avareza (Cl 3.5). O dinheiro não é mau nem bom em si mesmo. Sua
utilização é que deve ser justa, honesta e racional. A parte final do texto de
1 Timóteo 6.10, assevera: “e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e
se traspassaram a si mesmos com muitas dores”. É o amor do dinheiro que
é prejudicial, e faz mal à alma. Colocar o dinheiro à frente de todas as coisas
na vida, ou acima das prioridades espirituais, é mau e perigoso (Lc 12.15). As Escrituras
condenam a avareza porque ela conduz ao egoísmo e ao desamor (Hb 13.5; 2 Pe
2.3,14).
2. Na mordomia cristã, o
dinheiro é um meio e não um fim em si mesmo.
A sociedade hodierna gira
em torno do dinheiro e faz do mesmo a razão de tudo na vida, pois o incrédulo,
na sua cegueira espiritual não conhece a Deus. A Bíblia adverte: “o que
ama o dinheiro nunca se fartará dele” (Ec 5.10). Todavia, é exatamente
por sermos filhos de Deus que devemos ter consciência não só dos nossos
direitos, mas também dos nossos deveres sociais, morais, familiares e
espirituais. O trato com o dinheiro merece um cuidado especial, pois o chamado
“vil metal” tem feito a muitos se
tornarem ricos materialmente, mas miseráveis espiritualmente (Tg 5.1-3; Ap
3.17). Há um corinho antigo e simples, que diz: “Quem tem Jesus, tem tudo; quem não tem Jesus, não tem nada. Quem tem
Jesus tem tudo, no céu já tem morada”.
Assim, o dinheiro deve ser
visto sob o ângulo das coisas passageiras, útil, necessário, mas deve ser
utilizado com sabedoria, prudência e bom senso (Lc 16.1-13). Disse alguém: “O dinheiro é um bom servo, mas um péssimo
senhor”. Portanto, devemos entender que aquilo que chamamos de “nosso”, na verdade, não é bem nosso. É
linguagem comum, que não expressa a realidade das coisas, pois tudo é de Deus (Sl
24.1; 1 Co 10.26; At 17.24,25). A falsa ideia de que somos donos de alguma
coisa tem levado muitos a cometerem erros e fraquezas, que resultam em grandes
prejuízos morais, financeiros e espirituais.
CONCLUSÃO
Diante do exposto, aprendemos nesta
lição que não é pecado ganhar dinheiro ou adquirir bens de forma lícita e
legal. Porém, fazer delas um fim para nossas vidas constitui-se pecado.
Primeiro, porque Deus e seu Reino devem ocupar o primeiro lugar em nosso
coração (Mt 6.21,33). Em segundo, porque a avareza constitui-se em pecado de
idolatria (Cl 3.5). Em terceiro, porque nada possuímos, pois tudo pertence ao
Senhor, inclusive a nossa vida (Cl 3.4; 1 Pe 1.18,19). E, em quarto, porque
somos mordomos do Senhor que espera nos encontrar fiéis na administração do que
ele nos confiou. Só assim, ouvirem o Senhor Jesus dizer: “Bom está servo bom e fiel. Sobre
o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei, Entra no gozo do teu Senhor”
(Mt 25.21). Mas, se não observarmos os ensinos do Mestre e nos comportarmos
como os incrédulos (que não conhecem a
Deus). Então, o que ouviremos não será nada agradável: “Mau e
negligente servo, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?
Lançai para fora o servo inútil, nas trevas. Ali haverá choro e ranger de
dentes” (Mt 25.26,30). Vigiemos, pois, para não nos contaminarmos com
as filosofias deste mundo! Deus abençoe a todos!
REFERÊNCIAS
Ø ANDRADE,
Claudionor de. Dicionário Teológico. CPAD.
Ø GONÇALVES,
José. Lucas – O Evangelho de Jesus, o
Homem Perfeito. CPAD.
Ø GONÇALVES,
José. Lições Bíblicas. (1º Trimestre de 2015). CPAD.
Ø GONÇALVES,
José. Lições Bíblicas. (1º Trimestre de 2012). CPAD.
Ø COUTO, Geremias
do. Lições Bíblicas. (2º Trimestre de 2001). CPAD.
Ø CABRAL, Elienai. Lições
Bíblicas. (4º Trimestre de 2003). CPAD.
Ø Revista Ensinador, nº 62. CPAD.