1Jo
4.13-16
INTRODUÇÃO
I.
A PATERNIDADE DIVINA REVELADA NO FILHO
1.
A “geração” eterna do Filho de Deus.
A
palavra profética, no Antigo Testamento, usa o termo “filho” para Jesus: “Tu
és meu Filho, hoje te gerei” (Sl 2.7). Segundo Baptista (2025, p. 43),
essa declaração de Salmos 2.7 não se refere a um nascimento temporal ou carnal,
mas a uma geração eterna (Hb 1.5). De acordo com Soares (2024, p. 88,89), o
Credo Niceno afirma que Jesus é “gerado, não feito, de uma só substância
com o Pai” e o Credo Niceno-Constantinopolitano declara: “o
gerado do Pai antes de todos os séculos”. A geração eterna não deve ser
confundida com a geração na experiência humana porque ela não é física, nem
temporal ou histórica, nem envolve pai e mãe como acontece com os humanos. A
ideia envolve uma comunicação de essência divina do Pai ao Filho.
2.
A “filiação” eterna do Filho de Deus.
A
expressão teológica “filiação eterna” é muito diferente da outra
expressão “geração eterna”. Mas, a compreensão da primeira
expressão depende da segunda. A fundamentação bíblica de Isaías 9.6: “Um
menino nos nasceu, um filho se nos deu”. Note que o menino nasceu,
mas o Filho, segundo a palavra profética, não nasceu, mas “se nos deu”.
O nascimento desse menino aconteceu em Belém, mas o Filho já existia desde a
eternidade. A Bíblia ensina que Ele já era Filho antes de vir ao mundo (Jo
17.5). Além disso, a Escritura é clara em afirmar que Jesus é “o Filho do
Pai” (2Jo 1.3). Isso mostra que a filiação não começou na sua encarnação. A
formulação do Segundo Concilio de Constantinopla, em 553, reconhece que o Verbo
foi gerado duas vezes, “... a primeira do Pai antes de todas as eras,
intemporal e incorporai, e a outra nos últimos dias”, referindo-se à
encarnação” (Soares, 2024, pp. 90,91,92).
3.
A autenticidade da paternidade divina.
De
acordo com Baptista (2025, pp. 43,44), a geração do Filho pelo Pai é eterna,
necessária e espiritual, não ocorrendo no tempo, mas na eternidade. Na oração
sacerdotal Jesus disse: “E, agora, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti
mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo
17.5). O texto ensina que o relacionamento entre o Pai e o Filho é anterior à
criação, revelando que a identidade de Deus como Pai é eterna. Antes que o
mundo existisse, já havia uma comunhão gloriosa entre o Pai e o Filho. Sendo
assim, a doutrina da paternidade do Pai inalterável e amorosa sustenta a nossa
fé em tempos sombrios.
II. A HABITAÇÃO DIVINA COMO EVIDÊNCIA
DA FILIAÇÃO
1.
O Dom do Espírito Santo como selo da paternidade.
Em
1João 4.13, o apóstolo João declara: “Nisto conhecemos que permanecemos
nele, e ele, em nós: que nos deu do seu Espírito”. O dom do Espírito é
a garantia inicial e contínua da nossa união com Deus (Jo 14.16,17). Ele é o
“selo” e o “penhor” da nossa herança (Ef 1.13,14). Este dom não é merecido, mas
concedido pela graça do Pai (At 2.38). O verbo “deu” do versículo
3 de 1João aponta para um ato gracioso e definitivo, trazendo a ideia de dar
algo a alguém para o seu benefício.
2.
A mutualidade da habitação.
As
palavras do apóstolo João deixam claro que a habitação é mútua, não unilateral:
“estamos nele, e ele em nós” (1Jo 4.13). Existe uma relação
íntima de comunhão. É Cristo vivendo em nós (Gl 2.20) e nós “enraizados” nele
(Cl 2.7). Deus, como Pai, não é distante, mas habita no crente (Jo 14.23). Essa
habitação gera segurança espiritual e identidade, pois o crente vive sob o
cuidado paterno de Deus (Sl 68.5). A paternidade divina se manifesta em
comunhão diária.
3.
A Espírito Santo como mediador da relação paternal.
Na
carta aos gálatas, o apóstolo paulo disse: “E, porque sois filhos, Deus
enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gl
4.6). O Espírito que recebemos não é uma força impessoal, mas “o Espírito
de seu Filho”. É através dele que clamamos “Aba, Pai” (expressão
que denota uma confiança cega; expressa o amor e a confiança inteligente). É
através do Espírito Santo que conhecemos que estamos em Deus e Deus em nós. A
presença do Espírito Santo é a garantia objetiva da filiação divina. Conforme
Romanos 8.16, o Espírito testifica com o nosso espírito que “somos filhos
de Deus”, confirmando a paternidade divina na experiência cristã.
III. A CONFISSÃO DE JESUS COMO FILHO
DE DEUS
A
Primeira Epístola de João confronta os primeiros sinais do gnosticismo, que
negava a humanidade real de Cristo e, consequentemente, o relacionamento
pessoal com Deus, colocando em questionamento a paternidade divina em relação a
Cristo e, também, a cada um dos que foram feitos filhos de Deus (Jo 1.12; Rm
8.15; Gl 3.26; 4.5; 1Jo 3.1). O apóstolo João refuta tais inverdades. Vejamos:
1.
A testemunha ocular da encarnação.
O
apóstolo João fundamenta a autoridade das suas palavras, atestando a sua
experiência pessoal em relação a convivência com o Filho de Deus encarnado: “e
vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo” (1Jo
4.14). Para Henry (2008, p. 928), vemos aqui a certeza do apóstolo acerca dessa
verdade, ele e seus irmãos haviam visto isso: o Filho de Deus em sua natureza
humana (Jo 1.14,35-51; 1Jo 1.1), em sua convivência e obras divinas (Jo 2.11;
At 10.38), em sua transfiguração no monte (Mt 17.1-5; 2Pe 1.16-18) e em sua
morte, ressurreição dos mortos e ascensão magnífica ao céu (Mt 27.35-54; Mt
28.5-7; Lc 24.50-51; At 1.8); eles o viram de tal forma que estavam
absolutamente seguros de que Ele era o Unigênito do Pai (Jo 1.14,18).
2.
A confissão que gera habitação e salvação.
O
versículo 15 da primeira epístola de João estabelece uma condição e uma
promessa entreleçada: “Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de
Deus, Deus está nele e ele em Deus”. A confissão aqui é pública e
pessoal, envolvendo reconhecimento e submissão. De acordo com Baptista (2025,
p. 47), “reconhecer Jesus como Filho é reconhecer o Pai como Fonte da salvação.
Não há comunhão com Deus fora da mediação do Filho (1Tm 2.5). Negar essa
confissão é negar o próprio Pai: “Qualquer que nega o Filho também não
tem o Pai; e aquele que confessa o Filho tem também o Pai” (1Jo 2.23).
A partir dessa verdade, confessar a Cristo é viver em comunhão com o Pai. A
presença de Deus se manifesta continuamente na vida do crente que confessa o
Filho, pois “Deus está nele e ele em Deus” (Jo 4.15)”.
3.
A impossibilidade da Paternidade sem o Filho.
João
exclui qualquer caminho alternativo para Deus. O Pai só é conhecido através do
Filho. Quem vê o Filho, vê o Pai (Jo 14.7-10). “A confissão de Cristo como
Filho de Deus é condição para a salvação, essencial ao novo nascimento e à
reconciliação com o Pai. A filiação eterna de Jesus revela a paternidade
divina. Somente em Cristo o Pai é plenamente revelado. Ver o Filho é ver o Pai,
pois Ele é a expressão exata do seu Ser (Hb 1.3). Negar o Filho é, por
consequência, negar o acesso ao Pai (1Jo 2.23)” (Baptista, 2025, p. 48). Para
Wiersbe (2010, p. 272), à medida que conhecemos melhor Cristo, vemos o Pai pela
fé.
IV. OS FRUTOS PRÁTICOS DA CONSCIÊNCIA
DA PATERNIDADE DIVINA
1.
Quem está em amor está em Deus (1Jo 4.16).
“O amor é um atributo divino eterno. Esse amor é
sacrificial e redentor. O amor do Pai é inquebrável; nenhum poder ou
circunstância pode separar o crente desse amor (Rm 8.38-39). Mesmo em meio às
lutas, o salvo é guardado na certeza do amor que não falha. O amor do Pai não é
apenas geral, mas é individual, pessoal e íntimo, voltado para cada filho que
crê (Jo 16.27)” (Baptista, 2025, pp. 48,49).
2.
Confiança para o Dia do Juízo (1Jo 4.17,18).
“O medo punitivo que antes nos dominava é substituído
pela confiança filial, gerada pela presença do Espírito, que testifica a
adoção: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez,
estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção” (Rm 8.15). Essa
confiança estabelece a segurança da condição do salvo como filho de Deus.
Assim, o crente regenerado, embora consciente da realidade do juízo final (Hb
9.27), não vive sob terror [...]. Isso não significa que o crente não possa
perder a salvação. Essa confiança, não anula a vigilância. O risco da apostasia
é real (Ez 18.24; 1Co 10.12)” (Baptista, 2025, p.49).
3.
O amor fraternal (1Jo 4.19-21).
Para
Stamps (2015, p.1962), embora o amor seja um aspecto do fruto do Espírito (Gl
5.22,23) e uma evidência do novo nascimento (1Jo 2.29; 3.9,10; 5.1), é também
algo que temos a responsabilidade de desenvolver. “O amor de Deus não é
perfeito nele, mas em nós e conosco. Seu amor não poderia ser projetado para
ser ineficaz e infrutífero em nós. O amor divino aos irmãos deve constranger o
nosso. Os objetos do amor divino deveriam ser os objetos do nosso amor. Será
que nos recusaremos amar aqueles que o Deus eterno amou?” (Henry, 2008, pp.
927,928).
4.
Vida de obediência como expressão da filiação (1Jo 5.1-3).
A
consciência da paternidade divina conduz inevitavelmente a uma vida de
obediência amorosa. Para o apóstolo João, amar a Deus e guardar os seus
mandamentos não são realidades dissociadas, mas dimensões complementares da
mesma experiência filial. “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido
de Deus; e todo aquele que ama ao que o gerou ama também ao que dele é nascido”
(1Jo 5.1). A obediência cristã não é legalista nem opressiva, mas resulta de um
relacionamento de amor e pertencimento. Os mandamentos do Pai não são pesados
(1Jo 5.3), porque são cumpridos no contexto da graça e da comunhão, e não do
medo servil. Assim, o crente obedece não para tornar-se filho, mas porque já o
é. A obediência revela a maturidade da fé, preserva a comunhão com Deus e
testemunha ao mundo a realidade da nova vida em Cristo (Jo 14.21; 15.10). Nesse
sentido, viver segundo a vontade do Pai é um fruto visível da consciência da
paternidade divina e da identidade regenerada do cristão.
CONCLUSÃO
A
Paternidade Divina, revelada em 1 João 4.13-16, é a realidade mais
transformadora da vida cristã. Ela é confirmada pela habitação do Espírito,
fundamentada na confissão de Jesus, definida pela natureza do amor e
demonstrada numa vida de confiança e amor fraternal.
REFERÊNCIAS
Ø BAPTISTA, Douglas. A Santíssima
Trindade. O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas. CPAD.
Ø HENRY, Matthew. Comentário
Bíblico Matthew Henry – Vol. 6. CPAD.
Ø SOARES, Esequias. Em Defesa da
Fé Cristã. CPAD.
Ø STAMPS, Donald C. Bíblia de
Estudo Pentecostal. CPAD.
Ø WIERSBE, Warren W. Comentário
Bíblico Novo Testamento. Geográfica Editora.
Por
Rede Brasil de Comunicação.

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